A Arca

Tessalonica, 1917. No dia em que Dimitri Komninos nasce, um incêndio devastador varre a próspera cidade grega, onde cristãos, judeus e muçulmanos vivem lado a lado. Cinco anos mais tarde, a casa de Katerina Sarafoglou na Ásia Menor é destruída pelo exército turco. No meio do caos, Katerina perde a mãe e embarca para um destino desconhecido na Grécia. Não tarda muito para que a sua vida se entrelace com a de Dimitri e com a história da própria cidade, enquanto guerras, medos e perseguições começam a dividir o seu povo. Tessalonica, 2007. Um jovem anglo-grego ouve a história de vida dos seus avós e, pela primeira vez, apercebe-se de que tem uma decisão a tomar. Durante muitas décadas, os seus avós foram os guardiões das memórias e dos tesouros das pessoas que foram forçadas a abandonar a cidade. Será que está na altura de ele assumir esse papel e fazer daquela cidade a sua casa?

ISBN: 9789722635264 – Civilização Editora / 2012 – 416 páginas

 

 

 


Este é o terceiro livro da autora Victoria Hislop e é também o terceiro livro que leio dela. Adorei o primeiro livro dela e o segundo revelou ser muito bom, mas não exactamente o que estaria à espera da autora que me encantou na sua primeira obra. Tinha esperanças que a autora me voltasse a deslumbrar com este A Arca e na verdade, fiquei entusiasmada com esta leitura, apesar de não se ter revelado a maravilha absoluta que estava à espera.

Este livro fala-nos sobre um período histórico muito complicado da Grécia, entre os anos de 1917 e 1945. Durante estes anos, a nação grega passa por diversas complicações políticas, a começar pelos exílio prolongado do rei e consequentemente, as guerras que se sucederam neste território. A ocupação pelos tropas alemãs acabam por instalar o terror profundo e a perseguição aos judeus é acesa. De igual forma, os comunistas são perseguidos como criminosos. As consequências são sofridas pela população da pior forma: os habitantes passam fome, são retirados e expulsos das suas casas e das cidades. Os campos de refugiados não têm condições próprias para albergar a população que sofre as baixas destas guerras sucessivas e prolongadas. Famílias separam-se e perdem contacto durante o que parece uma vida. Novas relações desenvolvem-se a partir do infortúnio.

Os pontos positivos desta história são vários. Gosto bastante da forma como a autora constrói a sua narrativa e também dos seus cenários. A sua escrita é fluída e os seus livros lêem-se com rapidez, por serem cativantes. A sua pesquisa e a forma como a autora encaixa os factos históricos na sua narrativa ficcional é subtil e muito bem construída. Este é um período histórica pelo qual tenho um particular interesse e portanto gostei de ler sobre a Segunda Guerra Mundial sob uma nova perspectiva – a perspectiva grega. É um novo prisma que ainda não tinha sido explorado, normalmente leio sempre obra sob a perspectiva alemã, norte-americana ou britânica, e soube bem ler algo que embora fale sobre as mesmas circunstâncias, fala sobre estas de maneira diferente e nova.

Creio que entre os pontos menos positivos, podemos dizer que falta por vezes uma maior introspecção das personagens, eu gosto de ter um maior conhecimento dos sentimentos das personagens. O desenvolvimento das personagens fica um pouco aquém das expectativas. A Katerina foi uma personagem que me interessou mas parece-me que a sua personalidade foi apenas superficialmente explorada. O mesmo para o Dimitri, que tinha potencial para muito mais.

Contudo, esta é uma bonita história de amor, com muito sentimento e é também uma obra histórica que me deu um imenso prazer ler. Creio que a autora explora bem os factos históricos e constrói à volta destes um universo ficcional muito apelativo. Esta obra foi uma viagem muito apetitosa ao passado e tenho pena que tenha passado tão depressa. Gosto desta autora e se ela lançar mais livros, tenho intenção de os ler pois são sempre viagens agradáveis.

3-5

O Regresso

Este é o segundo livro da Victoria Hislop que leio. Já antes tinha lido o seu romance de estreia, intitulado A Ilha e a estreia com esta autora não poderia ter sido melhor. Embora já tenha lido há algum tempo esse livro (significando que já não me lembro de todos os contornos da história, a não ser os traços gerais), sei que gostei muito e que foi um livro que me marcou na altura em que o li. 
Por isso mesmo, o entusiasmo para voltar a ler um romance desta autora de novo, era grande. Ainda mais, porque a premissa prometia momentos intensos e emocionais.

Este livro conta-nos duas histórias paralelas: uma em 2001 e outra que começa no ano de 1931. 
Sónia Cameron é uma inglesa que tem uma paixão inexplicável por danças latinas. É o seu escape, tanto para o casamento infeliz que vive, como para a sensação de vazio que a enche nos dias mais cinzentos na cidade londrina. Quando Sónia dança, a sua vida enche-se de cor e é onde ela retira forças para o seu dia-a-dia e onde encontra felicidade. 
Por ocasião do aniversário da sua melhor amiga, Maggie, estas duas mulheres decidem ir passar uma semana a Granada, uma cidade situada no sopé da Serra Nevada, para dançar salsa e flamenco. E rapidamente a cidade como que lança um feitiço a Sónia com a sua vivalma. Ainda mais quando conhece Miguel, dono de um café chamado “El Barril”, que lhe decide contar a história da cidade nos tempos obscuros e perigosos da Guerra Civil Espanhola. O café, nesses tempos, era a herança da família Ramirez, que viveu tempos difíceis e conturbados durante essa época. Miguel transporta Sónia, com os seus relatos, para os anos em que a família Ramirez viveu e deixou a sua marca na cidade. Com ajuda do legado vivo, El Barril, e as infinitas fotografias que se encontram expostas nas paredes do café, Miguel – que à partida não parece ter qualquer ligação a esta família – vai deslumbrar Sónia com uma história que mistura guerra, famílias e amores que se perdem no tempo.

Esta foi uma leitura algo difícil. Passo a explicar o porquê: relatos históricos são muito difíceis de se capturar da melhor maneira. Tanto podem ser descritos de maneira viva, como podem ser descritos de uma maneira maçadora. Apesar de este livro se basear neste período histórico, tem muitos elementos ficcionais que ajudam o leitor a ambientar-se à narrativa. No entanto, Victoria, tem uma escrita algo particular e um bocado inconstante. Digo inconstante, porque o livro tanto me entusiasmava, como não apelava à sua leitura. Não é por acaso que demorei quase um mês a ler o livro. 
No início da leitura, foi francamente difícil avançar no enredo, pelo que desanimei um pouco. No entanto, depois de me embrenhar melhor na história, a narrativa já se desenrolou com outra desenvoltura. Os responsáveis foram os tais elementos ficcionais que referi acima. 

Notou-se em toda a obra, a notável e abrangente pesquisa que a autora fez, não só do período histórico, tal como da cultura espanhola e a origem das próprias danças latinas. No entanto, houveram vários pormenores que estiveram a mais, a meu ver (especialmente no que toca a explanações sobre danças). Nisto, num livro com quase 500 páginas, é preciso saber muito bem em que temáticas se debruçar e Victoria Hislop acabou por me maçar em certos trechos da sua narrativa. 
Contudo, a perseverança, permitiu-me apreciar este livro mais do que estava a contar no início. Gostei especialmente de conhecer a família Ramirez e o romance “perdido” ente Javier e Mercedes, que me mantiveram entretida durante muitas horas.
A autora capturou muito bem a intensidade da época histórica (não que diga isto por experiência, claro, mas senti-me de facto, transportada para o ambiente que aí se vivia).
Esquecendo alguns pontos negativos que encontrei na obra (que se ligam todos a um exagero de descrições em algumas temáticas), foi uma leitura muito recompensadora e diferente do que havido lido até agora. A autora deitou outra luz a esta época.

Possivelmente se não tivesse lido “A Ilha” primeiro, ficaria desiludida com esta obra, mas assim sendo, mantenho na memória a forte impressão que o romance de estreia da autora me deixou. Este segundo romance, não me deixou uma marca tão forte, mas sem dúvida que irei continuar a ler os trabalhos desta Escritora.