Sonho Febril

Rio Mississípi, 1857. Abner Marsh, respeitável mas falido capitão de barcos a vapor, é abordado por um misterioso aristocrata de nome Joshua York que lhe oferece a oportunidade única de construir o barco dos seus sonhos. York tem os seus próprios motivos para navegar o rio Mississípi, e Marsh é forçado a aceitar o secretismo do seu patrono, não importando o quão bizarros ou caprichosos pareçam os seus actos. Mas à medida que navegam o rio, rumores circulam sobre o enigmático York: toma refeições apenas de madrugada, e na companhia de amigos raramente vistos à luz do dia. E na esteira do magnífico barco a vapor Fevre Dream é deixado um rasto de corpos… Ao aperceber-se de que embarcou numa missão cheia de perigos e trevas, Marsh é forçado a confrontar o homem que tornou o seu sonho realidade.

ISBN: 9789896372750 – Edições Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2010 – 385 páginas


O grande nome de George R.R.Martin é conhecido mundialmente pela sua série Game of Thrones – tanto os livros como a adaptação televisiva – mas antes de começar com esse sucesso mundial, o autor escreveu este livro de vampiros, que já mostra muito do talento narrativo que o senhor tem.

Estamos no século XIX e o negócio dos barcos a vapor está ao rubro. Abner Marsh, que é dono de uma destas empresas que desloca os barcos a vapor rio acima e rio abaixo transportando passageiros e mercadoria, acaba de perder grande parte do seu volume de negócios num dos Invernos mais rigorosos que os estados sulistas dos Estados Unidos da América já viram. Encontra-se na mó de baixo, embora sonhasse um dia que a sua companhia tivesse um dos barcos a vapor mais rápidos do mercado. A oportunidade de realizar os seus maiores sonhos surge quando Joshua York propõe uma sociedade com Abner e lhe oferece a possibilidade de construir o barco dos seus sonhos para navegar o rio Mississípi.
No entanto, esta sociedade tem uns termos algo insólitos. Joshua tem algumas exigências que levantam alguma suspeita, mas Abner, cego pela possibilidade de atingir as suas maiores ambições acaba por aceder a todos os estranhos pedidos do seu mais recente parceiro. Os primeiros tempos da sociedade são ouro sobre azul, com poucos problemas, mas os rumores rapidamente começam a surgir sobre os estranhos hábitos de Joshua e da vida nocturna que este leva. Afinal, Marsh vai-se apercebendo que a sociedade em que se meteu é algo que abrange mais perigos do que apenas algumas extravagâncias de carácter.

Este livro é absolutamente viciante. Não foi perfeito, não foi a melhor leitura do ano até agora, mas esteve lá muito muito perto. Não entrei logo no espírito ao início, as primeiras 50 páginas foram as mais calminhas e por isso comecei a criar a ideia que este livro não seria assim tão bom quanto eu estava à espera. Mas… mal o barco começou a navegar pelo rio, a narrativa tornou-se altamente viciante e dei por mim com aquela sensação de “só mais um capítulo, só mais um…”. Está certo que as expectativas eram elevadas. Afinal estamos a falar de um dos autores mais falados na contemporaneidade e por isso esperava algo maravilhoso dele e foi isso que encontrei.
Não só o enredo é viciante e o leitor vê-se embrenhado na vida das personagens mas também o autor demonstra o seu conhecimento literário ao ir buscar a inspiração em Dracula de Bram Stoker e falar de acontecimentos que tiveram lugar na Europa de Leste no século XVI. Foi preciso alguma pesquisa para encaixar estas influências aqui e estes detalhes tornaram o livro deveras interessante para mim. Foi preciso também imaginação para dar uma nova perspectiva a esta temática.

Já nesta obra se nota que o autor tem um particular dom para a escrita e para aliciar os leitores com a sua narrativa, que viria mais tarde a culminar no sucesso da Guerra dos Tronos. O autor não arrasta demasiado o enredo, vai dando ao leitor a possibilidade de achar que há uma solução em breve e acaba por nos frustrar essa satisfação quando outra dificuldade se apresenta no horizonte para os personagens intervenientes. Toda a temática do vampiro está aqui muito bem trabalhada e acaba por dar uma nova perspectiva àquele que já é um tema muito trabalhado em qualquer literatura nacional. Abner, o narrador, foi uma personagem bastante aprofundada e deveras interessante. Na verdade, foi um dos narradores mais interessantes que tive oportunidade de conhecer. Já Joshua acho que ficou a perder nesta instância. Gostava que o autor tivesse explorado mais as personagens de Joshua e de Julian (este último revelava-se ser o mais rico em distúrbios mentais e penso que teria sido interessante conhecer algumas das suas opiniões em primeira mão).

Gostei imenso deste livro e foi uma autêntica surpresa!

4

Highlander – Para Além das Brumas

Um Laird fascinante
Ele era conhecido por todo o reino como Açor, lendário predador de campos de batalha e alcovas. Não havia mulher capaz de recusar o seu toque, mas mulher alguma lhe fizera jamais estremecer o coração — até uma vingativa fada trazer Adrienne de Simone, aos trambolhões, da Seattle dos tempos atuais para a Escócia medieval. Cativa num século que não era o seu, ousada até mais não, sem papas na língua, ela era um desafio irresistível para o conquistador do século XVI. Coagida a casar-se com Açor, Adrienne jurou mantê-lo à distância — mas a sua doce sedução devastou tal resolução.

Uma prisioneira no tempo
Ela tinha um perfeito “não” nos seus perfeitos lábios para o famigerado laird, mas Açor jurou que ela haveria de sussurrar o seu nome com desejo, implorando a paixão que ele ansiava por inflamar dentro dela. Nem mesmo as barreiras do tempo e do espaço o deteriam na conquista do seu amor. Apesar da sua incerteza quanto a seguir os impulsos do seu coração apaixonado, as reservas de Adrienne não igualavam a determinação de Açor em mantê-la ao seu lado…

ISBN: 9789896374075 – Saída de Emergência / 2012 – 289 páginas

O Hobbit

Antes de começar a falar sobre esta obra em particular é preciso dizer que eu sou fã desta autora Karen Marie Moning,  por isso vou-vos contar a vida difícil que esta autora encontrou no mercado editorial Português. Tenho seguido esta série Highlander desde que os primeiros livros saíram e adorei-os a todos. Devorava-os como se fossem chocolate. Até ter recebido a notícia por parte da editora Saída de Emergência que os livros da senhora não vendiam o suficiente e a publicação de outros livros iria ficar suspensa. As fãs, que como eu, ficaram tristes com esta notícia, fizeram de tudo e apelaram à editora para que esta desse uma segunda hipótese a esta autora. E assim foi, lá continuaram a publicar um livro da autora ao longo dos tempos e parecia que o momento era oportuno visto que outra editora portuguesa decidiu publicar os livros da outra série da autora, intitulada “Fever”. Contudo, eis que as más notícias sucederam-se. Não só a Contraponto decidiu abandonar a publicação dos livros da série Fever (que são maravilhosos!) bem como a Saída de Emergência voltaria a repensar a sua estratégia para o nome da Karen Marie Moning.
E eis que por graça de alguém que percebe o que é ficar com uma série na estante a meio/incompleta, os livros da série Highlander continuaram a ser publicados, sendo que em Fevereiro irá sair o último volume para o mercado. Esta é uma história com final feliz, ou meio final feliz, melhor dizendo já que duvido que se veja a restante série Fever no nosso país.
Mas bom, eu estou contente pela perseverança da editora e agradeço por não terem desistido do nome e é por isso que em vez de comprar os livros em inglês, que era o que eu já estava a considerar, continuei a comprar as vossas edições.

Como dizia eu no início, eu gosto muito desta autora. Acho que são livros que primam pelo enredo simples mas cativante, o ideal para aquecer uma noite de inverno ou um dia de domingo que se mostra aborrecido. Além disso, o fascínio que a autora tem pela Escócia, pelos Highlanders e todo a riqueza cultura desta região é patente nas suas obras e eu sou igualmente fascinada por estes elementos, pelo que sei que vou encontrar uma leitura que me agrada em todos os sentidos. Tanto no romance, como no mistério que envolve o passado das personagens e pelo cenário que nos é apresentado ao longo destas páginas. Como disse, é daquelas leituras que são o meu “guilty pleasure”, quando quero ler algo que sei que vou devorar e ainda assim, aproveitar. Karen Marie Moning e os seus highlanders não falham e não há maneira de odiar estas leituras.
Mas de algum modo, não sei se pelo estado de espírito em que me encontro actualmente, esta história em particular não me encantou tanto como esperava. Embora tenha lido este livro em pouco tempo (a autora tem realmente em todos os seus livros esta qualidade de “devoração”, tanto pela escrita fácil e agradável como pelas histórias que cria) não consegui ligar-me tão completamente a estes personagens nem vibrei tanto com este romance quanto com os anteriores que li.

Um dos meus elementos favoritos no livro foi rever um personagem que irá ter o seu próprio livro mais à frente e que eu já li porque os livros não foram publicados pela ordem de publicação, um personagem que é o protagonista do livro que é o meu favorito (até agora) de toda a série. Concluindo, gostei de ler o livro e foi uma leitura muito prazerosa mas de alguma forma, o Sidehawk não se revelou ser dos personagens mais inesquecíveis, talvez pelo seu nome ter perdido a magia na tradução.

Pássaros Feridos

Beijo

Izzy um dia vai ser famosa. A indústria da música é que ainda não a descobriu. A irrepreensível Izzy tem um talento fascinante, dois namorados perfeitos e uma filha para lhe organizar a vida. Basicamente, uma vida de sonho. Já a vida de Gina não podia ser mais infernal. O cretino do marido acaba de fugir com a amante grávida. E ela sente-se destroçada quando derruba acidentalmente Izzy da sua moto. Porém, não é propriamente o fim do mundo, pois não? Apenas uma perna partida. Mas o mundo de Gina, como ela o conhece, está prestes a ficar de pernas para o ar. Izzy e a filha Kat foram catapultadas para dentro da sua vida, antes tão metódica. Pior, Izzy está de olho no melhor amigo de Gina, Sam, que é lindo de morrer. Como acabará tudo? Numa torrente de lágrimas ou num beijo inesquecível?

ISBN: 9789897100468 – Saída de Emergência (Chá das Cinco) / 2013 – 354 páginas

O Regresso do Rei - Senhor dos Anéis, Vol.3

Quem já conhece os livros da autora Jill Mansell não vai encontrar encontrar nada de diferente neste Beijo. O enredo, a construção das personagens e o desenvolvimento da história deste livro tem decididamente a marca da autora e para os fãs isso tanto pode constituir um conforto ou simplesmente mais do mesmo. Eu, que até gosto bastante da autora (embora já tenha gostado mais) confesso que me sinto dividida entre essas duas realidades. Por um lado, é bom abrir um livro e saber o que vou encontrar. Uma história leve, com algumas situações caricatas, umas mais divertidas que outras mas encontro sobretudo uma leitura leve propícia para a descontracção. Contudo, depois de já ter lido tantos livros da autora começo a acusar algum cansaço pelas facto de as histórias serem sempre todas iguais, só mudam os nomes das personagens e as situações caricatas. E ainda mais, os livros mais recentes da autora não se têm relevado assim tão divertidos quanto isso.
Enquanto alguns livros mais antigos da autora me fizeram dar umas valentes gargalhadas, estes últimos têm-se relevado um pouco aquém das expectativas nesse aspecto. Por vezes a autora envereda por caminhos que não são inteiramente do meu agrado e eu acabo por ficar um pouco frustrada com a leitura. E estas situações de que falo – não as revelo para não vos estragar a vossa leitura – eram inteiramente dispensáveis para o desenvolvimento da personagem.
Neste livro em específico aconteceu-me com a personagem de Katerina, a filha da protagonista deste livro. Não gostei da forma como a autora desenvolveu esta personagem e aquilo que de início parecia ser promissor relevou-se uma desilusão.
É costume a autora nos seus livros explorar diversos casais simultaneamente ao longo do livro e isso até tem a sua graça, mas creio que ela neste excedeu-se um pouco com as trocas e reviravoltas.
Concluindo, posso dizer que li o livro com gosto, foi uma leitura que se fez sem sobressaltos mas este livro está longe de ser um dos melhores da autora ou mesmo um dos mais divertidos ou românticos. Vale a pena pelo entretenimento e pelos finais felizes, mas é com alguma tristeza que verifico que esta autora já não me diz tanto quanto outrora dizia.
Ainda conto ler os dois livros dela mais recentes, mas não o farei para já.

Pássaros Feridos

A Glória dos Traidores

O bafo cruel e impiedoso do Inverno já se sente. Quando Jon Snow consegue regressar à Muralha, perseguido pelos antigos companheiros do Povo Livre, não sabe o que irá encontrar nem como será recebido pelos seus irmãos da Patrulha da Noite. Só tem uma certeza: há coisas bem piores do que a hoste de selvagens a aproximarem-se pela floresta assombrada.

ISBN: 9789896370916 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2008 – 570 páginas

O Hobbit

Esta é a segunda metade do terceiro livro da série de George Martin. O quinto livro (correspondente à primeira metade) já tinha revelado que as surpresas estariam próximas e por isso foi com algumas expectativas que comecei a leitura deste livro. Comecei a leitura de forma algo lenta, visto que o autor tem já este hábito de ir construindo o enredo em forma de crescendo. No início parece estar tudo calmo e em questão de momentos, o caos apresenta-se, glorioso. Confesso que embora esteja a adorar esta série – George revelou-se ser um autor que move massas – acho que algumas partes do livro poderiam ser mais breves. Durante a leitura deste livro, algumas vezes senti que vários pormenores eram desnecessários e que vários elementos descritivos estavam lá apenas para encher o livro e não para fazer alguma diferença. Apesar de isso ser uma estratégia narrativa do autor, nunca antes tinha sentido isso se não neste livro, por isso creio que isso complicou a minha leitura, pelo menos até à primeira metade do livro – que é mais lenta e mais morosa.

No entanto, após ter chegado à segunda metade do livro, muitas coisas mudaram. De facto, até parecia que estava a ler um livro totalmente diferente. Tudo aquilo que foi mais lento, mais descritivo na primeira metade, foi acção e surpresa na segunda. De um momento para o outro, o autor começou a revelar facto surpreendente atrás de facto surpreendente, de forma que o leitor nem sabe para onde se virar. Decerto, até se sente algo perdido pois aquilo que parecia um livro tão calmo e tão sensaborão, revelou-se ser até agora, o livro mais explosivo da série para mim.

É verdadeiramente impossível nos mantermos impassíveis na leitura deste livro. Falo por mim, que nas últimas 200 e poucas páginas estive quase sempre de boca aberta. Alguns acontecimentos esperava, outros nem por isso. Normalmente não costumo gostar muito destas mudanças de ritmo abruptas na narrativa por serem exactamente isso, abruptas. Neste caso, é difícil dizer que não gostei. A verdade é que se o ritmo não tivesse mudado, provavelmente eu iria achar que este tinha sido um dos livros mais aborrecidos da série até agora. Mas foi devido a esta mudança de ritmo completamente alucinante que a leitura acabou por valer a pena. Não estava à espera desta sucessão de golpes e foram todos golpes que prometem ter consequências futuras interessantes.

Mais que isto, foi um final de livro que me deixou completamente ansiosa para explorar o futuro desta série. Este jogo político e social está cada vez mais empolgante e é impossível não conjecturar vários caminhos para as personagens que habitam este mundo. Sem surpresa alguma, George Martin consegue aqui mais um sucesso e deixa os leitores com água na boca.

Não sei quando lerei o(s) próximo(s) livro(s) mas estará certamente para breve.

Outlander - A Libélula Presa no Âmbar

A Tormenta de Espadas

Os Sete Reinos estremecem quando os temíveis selvagens do lado de lá da Muralha se aproximam, numa maré interminável de homens, gigantes e terríveis bestas. Jon Snow, o Bastardo de Winterfell, encontra-se entre eles, debatendo-se com a sua consciência e o papel que é forçado a desempenhar.
Todo o território continua a ferro e fogo. Robb Stark, o Jovem Lobo, vence todas as suas batalhas, mas será ele capaz de vencer as mais subtis, que não se travam pela espada? A sua irmã Arya continua em fuga e procura chegar a Correrrio, mas mesmo alguém tão desembaraçado como ela terá dificuldade em ultrapassar os obstáculos que se aproximam.
Na corte de Joffrey, em Porto Real, Tyrion luta pela vida, depois de ter sido gravemente ferido na Batalha da Água Negra, e Sansa, livre do compromisso com o rapaz cruel que ocupa o Trono de Ferro, tem de lidar com as consequências de ser segunda na linha de sucessão de Winterfell, uma vez que Bran e Rickon se julgam mortos.
No Leste, Daenerys Targaryen navega na direcção das terras da sua infância, mas antes terá de aportar às cidades dos esclavagistas, que despreza. Mas a menina indefesa transformou-se numa mulher poderosa. Quem sabe quanto tempo falta para se transformar numa conquistadora impiedosa?

ISBN: 9789896370718 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2008 – 538 páginas

O Hobbit

Os conflitos continuam a grassar nos Sete Reinos e a luta pela conquista do Trono de Ferro está mais acesa que nunca. Esta primeira metade do terceiro volume das Crónicas de Gelo e de Fogo. Em termos cronológicos, os acontecimentos deste livro estão a par do livro anterior e por isso não se pode dizer que mudou muito neste volume. Pode dizer-se sim que o nível de acção e as emoções começam a aumentar de intensidade.
Esta leitura não foi para mim muito fácil. Não tem que ver com o livro (que acabou por se revelar tão bom quantos os anteriores) mas tem mais que ver comigo. Comecei muito entusiasmada a leitura deste livro, mas depois sem saber muito bem como, meteram-se à frente uns livros da biblioteca que tinha de entregar e este foi posto de lado durante uns tempos. Até aqui, tudo bem.
Mas quando voltei a pegar no livro – apesar de continuar ansiosa para ler – já não foi a mesma, já não estava com a mesma ânsia, com a mesma sofreguidão. Até ao ponto em que cheguei a recear não ter vontade de lhe pegar novamente. O livro que até nos traz desenvolvimentos interessantes (para dizer o mínimo) e que tem um nível de acção estonteante, não podia de maneira nenhuma não gostar desta leitura. A questão é que existe um timing para tudo. Felizmente, o meu entusiasmo acabou por voltar e lá fui aos poucos lendo esta aventura.  Nesta primeira metade do terceiro não há mesmo tempo para parar e pensar no que está a acontecer.

As coisas simplesmente acontecem a uma velocidade verdadeiramente vertiginosa. Por vezes até me senti confusa com as tramas políticas que são cada vez mais intrincadas e complicadas de destrinçar. Confesso que alguns capítulos foram mais cativantes que outros por razões muito pessoais. Os pontos de vista dos meus personagens favoritos – até ao momento – são sempre aqueles que mais aprecio e por isso, leio esses capítulos com mais ânsia.
Todos vocês já estão fartos de o saber, mas a mim ainda me fascina o facto do autor ter criado um universo tão… completo. Rico, complexo. Cheio de tramas e mais pequenas tramas. Tanta variedade, tanta riqueza cultural que os livros de Martin oferecem aos seus leitores.
É impossível não se deixar conquistar pelas descrições do autor, por este universo cruel mas também belo.

O meu objectivo inicial seria ler já de seguida a outra metade que dá por concluído o terceiro volume da saga, mas como tal não irá ser possível de momento, vou ter que esperar mais um pouco para ler o sexto volume, A Glória dos Traidores. Por essa mesma razão, não me queria alongar em julgamentos precipitados sem ler o livro na sua totalidade. Se já tive várias surpresas neste livro, nem quero imaginar o que se segue.
Estou verdadeiramente aos pulos para ler o próximo episódio desta Crónicas de Gelo e Fogo.

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Três é Demais

Não há família mais glamorosa que os Mandeville.
O casal de celebridades Jack e Cass Mandeville parece ter tudo — boa aparência, carreiras coroadas de êxito e um casamento maravilhoso. Os filhos também são incrivelmente talentosos: a Cleo é supermodelo; o Sean é um comediante de sucesso; e embora Sophie, uma adolescente de 16 anos, esconda a sua aparência sob uns enormes óculos redondos e roupa larga, todos veem que existe um belo cisne ansioso por desabrochar.
Aos olhos da imprensa, a família Mandeville é simplesmente exemplar.
Mas uma ruiva lindíssima, de seu nome Imogen, aparece para entrevistar Jack e Cass na manhã do quadragésimo aniversário de Jack… e a família fabulosa descobre que afinal talvez não seja assim tão perfeita.

ISBN: 9789897100390 – Chá das Cinco (Saída de Emergência) / 2012 – 322 páginas

O Regresso do Rei - Senhor dos Anéis, Vol.3

Já perdi a conta ao número de livros que li da autora Jill Mansell. De facto, tenho lido, por ordem de publicação, todos os livros dela que a chancela Chá das Cinco publica. Sendo que esta é das minhas autoras favoritas, pelo seu sentido de humor tão apurado e livros tão bem-dispostos, estava confiante que este livro Três é Demais, seria outro sucesso para mim. À primeira vista este livro parece ser como todos os outros da Jill. Com uma premissa divertida, algumas situações embaraçosas mas divertidas, personagens desajeitados – alguns com um coração podre e outros com coração de ouro. Comecei este livro com a expectativa de encontrar exactamente aquilo que tanto gosto nesta autora, tudo aquilo que referi nas linhas anteriores. E qual não foi o meu espanto quando cheguei ao fim desta leitura e comecei a pensar para mim mesma que isto nem parecia um livro de uma das minhas autoras favoritas.

Não que o livro tenho sido uma grave desilusão, mas faltou decididamente alguma coisa a este livro. E devo dizer que a temática que é apresentada neste livro é das que mais odeio. Traições. Pois é. Não fosse eu já odiar tudo o que é traição ainda tinha que levar com 300 páginas cheias de episódios destes, onde toda a gente gosta de meter a mão na cerca do lado. Como se pode imaginar, não lidei muito bem com isso e o livro enjoou-me com tanta atitude desprezável por parte destas personagens. Se tivesse que escolher um para sobreviver à minha raiva, ia ter dificuldade a deixar algum deles com vida. Muito a sério, este livro chocou-me e irritou-me. Não pela temática em si, pela leviandade com a qual a autora abordou este tema.

Em vez de ser um tema divertido, foi deprimente e sem dúvida um pouco sem gosto. Não sei se é de mim, se fui que não consegui achar piada a isto, mas de facto, foi tudo menos divertido. Fiquei desgostosa com estes personagens, que é cada um pior que o outro. Não consegui sentir empatia com eles, à excepção de Sophie que é a única que se safa no meio deste zoo de traidores e inconsequentes. De alguma forma reservei a esperança de que a autora mudasse o rumo do livro e confesso que o final não foi tão mau quanto eu esperava, mas este é um livro que não deixa memórias propriamente felizes.

Se tivesse que escolher apenas um adjectivo para classificar esta obra seria exasperante. Do início ao fim. Sem tirar nem pôr. Sinceramente fiquei a ponderar se a autora não terá escrito este livro numa altura menos boa da sua vida. De alguma maneira, não fui preparada para encontrar o que na verdade encontrei e… E pronto, acabei com um sentimento de amargura no coração. Já dizia o povo que quanto mais alto se é, maior é a queda e foi exactamente isso que se sucedeu com as minhas expectativas para esta obra.

Contudo, continuo a dizer que esta é uma das autoras que ainda faz parte da minha eleição pelos seus enredos divertidos e por regra, tão humanos, no sentido em que a autora trabalha espectacularmente com emoções e relações humanas. Por isso mesmo, espero que o próximo livro dela me recorde porque é que eu gosto tanto dos seus livros.

2,5

O Despertar da Magia

Quarto volume de As Crónicas de Gelo e Fogo, a saga de fantasia mais vendida, elogiada e premiada dos últimos 50 anos, e a única obra de fantasia a conseguir o primeiro lugar do Top do New York Times.Esta é uma saga de grande fôlego, que vai buscar à realidade medieval a textura e o pormenor que conferem dimensão e crueza a um universo de fantasia tão bem construído que faz empalidecer a Terra Média de Tolkien. Martin é um especialista na manipulação das expectativas dos leitores e, profundo conhecedor do género, não deixa de estender sucessivas armadilhas com as quais desarma os tropos que o leitor pensa reconhecer a cada página. O épico de fantasia que toda a Fantasia Épica gostava de ser.

ISBN: 9789896370480 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) /2008 – 395 páginas

A Papisa Joana

Quem não leu os livros anteriores, não aconselho a leitura desta opinião.

A luta pela coroa dos Sete Reinos e pelo Trono de Ferro continua. Estratégias e planos de combate são traçados e mais que nunca, os conflitos espalham-se como um vírus pelo território. Alianças desfazem-se todos os dias e algumas Casas têm dificuldade em manter o seu território protegido. Homens amigos viram-se uns contra os outros na busca insaciável de mais e mais poder. A magia, algo que se julgava morto há muito muito tempo, volta de novo a nascer e a florescer em todo o seu esplendor e com este renascimento nasce também insegurança e desconfiança. O reino para além da Muralha também está em mudança e os selvagens preparam-se para investirem contra o Sul e para o território que se encontra a sul da Muralha. Ninguém está verdadeiramente seguro e vivem-se tempos muito perigosos, a todos os níveis.

O Despertar da Magia é a segunda metade do segundo livro da série das Crónicas de Gelo e Fogo e por isso mesmo, encontra-se na mesma linha do livro que tinha lido anteriormente a este, A Fúria dos Reis. Na opinião desse livro, tinha mencionado que tinha sido uma narrativa feita num ritmo mais lento, a calma antes da tempestade. E este livro não foi diferente, nesse aspecto. Começou na mesma linha mais política, vagarosa e foi desenvolvendo ritmo à medida que o final se aproximava. Preparando talvez a vinda de um próximo livro mais explosivo. Na minha perspectiva, apesar de ter sido um livro calmo, foi também um livro que trouxe muito à história e preparou terreno para acontecimentos futuros. A intenção do autor no final foi clara, com a sua habilidade de deixar os leitores a ponderar possíveis cenários. Nada nestes livros é definitivo. Tudo se caracteriza como sendo de carácter temporário e George deixa sempre os seus leitores em suspenso. Se são leitores que precisam de respostas pouco crípticas e muito concretas, vão encontrar nas páginas desta série muita frustração.

Creio que é impossível não entrar instantaneamente neste universo. Para mim, não é a fantasia que o torna único, embora seja de facto um mundo e uma criação fantástica. O que o torna único é ser um universo multi-facetado, com muitas voltas e reviravoltas. Com muitas dimensões e com personagens tão ricas dentro destas diversas facetas. Seja uma dimensão mágica, romântica, outra mais de acção, é impossível não nos envolvermos na vida destes personagens e seguirmos com a máxima atenção as suas diversas jornadas. George Martin consegue de uma forma assustadoramente eficiente fazer-nos criar uma ligação com os seus personagens.
Como tão bem esta sinopse menciona, o autor manipula com uma mão de mestre, as expectativas dos seus leitores. Não diria que as gora, mas mais que destrói aquilo que poderia ser o esperado dentro de uma série de fantasia. É impossível partimos para uma leitura destas a achar que sabemos o que vai acontecer. Isso é meio caminho andado para acabarmos esta leitura com o queixo no chão.

Além disto, a minha parte favorita destes livros é a forma como o autor trabalha com a dimensão humana. Já mencionei isto, mas nunca é demais fazer notar quão brilhante é a forma como ele constrói as suas personagens e como as desenvolve. Nem todos os autores são bem sucedidos quando tentam construir personagens tão complexas e multi-facetadas (como o próprio mundo onde se inserem).

É uma série que merece o sucesso e a fama que tem vindo a angariar ao longo dos anos e sem dúvida alguma que irei continuar a ler os livros deste autor. Conto ler os próximos dois volumes das Crónicas de Gelo e de Fogo já em Julho e mal posso conter a minha ansiedade para saber o que me espera.

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A Fúria dos Reis

Quando um cometa vermelho surge nos céus de Westeros encontra os Sete Reinos em plena guerra civil. Os combates estendem-se pelas terras fluviais e os grandes exércitos dos Stark e dos Lannister preparam-se para o derradeiro embate.
No seu domínio insular, Stannis, irmão do falecido Rei Robert, luta por construir um exército que suporte a sua reivindicação ao trono e alia-se a uma misteriosa religião vinda do oriente. Mas não é o único, pois o seu irmão mais novo também se proclama rei, suportado por uma hoste que reúne quase todas as forças do sul. Para pior as coisas, nas Ilhas de Ferro, os Greyjoy planeiam a vingança contra aqueles que os humilharam dez anos atrás.
O Trono de Ferro é ocupado pelo caprichoso filho de Robert, Joffrey, mas quem de facto governa é a sua cruel e maquiavélica mãe. Com a afluência de refugiados e um fornecimento insuficiente de mantimentos, a cidade transformou-se num lugar perigoso, e a Corte aguarda com medo o momento em que os dois irmãos do falecido rei avancem contra ela. Mas quando finalmente o fazem, não é contra a cidade que investem…
O que os Sete Reinos não sabem é que nada disto se compara ao derradeiro perigo que se avizinha: no distante Leste, os dragões crescem em poder, e não faltará muito para que cheguem com fogo e morte!

ISBN: 9789896370268 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2008 – 429 páginas

O Hobbit

Para quem não leu os dois livros anteriores, aconselho a não lerem esta opinião.

Após a morte de Robert Baratheon, os Sete Reinos encontram-se envolvidos num tremendo conflito pela luta da coroa. As Casa dividem-se em facções e cada um escolhe um lado. O reino está mergulhado em sangue, miséria e horror. Ninguém pode confiar em ninguém. A luta pelo poder está mais intensa que nunca, com Stannis e Renly Baratheon na primeira linha de batalha. Joffrey e a Casa Lannister muito sofre tentando manter o trono e tentando satisfazer a população em Porto Real, que está pronta a rebelar-se contra os seus governantes. A população passa fome e está na miséria abosluta e os Sete Reinos estão mais instáveis que nunca. Cada homem por si mesmo e todos os juramentos se quebram nestes tempos de instabilidade política. A magia está no ar e poderes muito antigos acordam, prometendo lançar ainda mais o caos no território inteiro.

Depois de ter ficado surpreendida (pela positiva) com os primeiros dois volumes – o primeiro livro no original – da série Crónicas de Gelo e de Fogo, foi com muito entusiasmo que me lancei a esta primeira metade do segundo livro da série, intitulado em inglês Clash of Kings – que representa muitíssimo bem a essência do livro, devo dizer. Depois de um início prometedor, este livro A Fúria dos Reis prometia ser uma leitura igualmente cativante. E assim foi. Este senhor está a revelar-se ser um mestre em trocar as voltas aos seus leitores. E a cativá-los de maneira única.
Este livro para mim, revelou-se ser uma narrativa mais calma, de certo modo mais estratégica. Deu mais ênfase à contextualização política do reino, por razões óbvias. Gostei bastante desta mudança de ritmo devo dizer. Os primeiros dois livros para mim uma azáfama, foram lidos de forma bastante rápida, com muitas emoções ao rubro pelo meio. Já na leitura deste livro, senti que esta foi feita a um ritmo mais vagaroso, mais lento, mas nem por isso menos cativante. Obrigou-me a olhar verdadeiramente para os personagens que mais aparecem nesta primeira metade da obra e obrigou-me também a pensar nas suas acções, nas suas verdadeiras motivações. Obrigou-me a pensar como um estratega político. Sendo que é muito difícil conhecer estes personagens na sua totalidade (têm sempre muitas facetas) deu-me especial gozo tentar perceber a natureza de cada um. As suas lealdades. Quais poderiam ser os seus passos.

De facto, creio que um dos grandes talentos de Martin é a maneira como ele manipula esta condição humana. Todos nós fomos equipados com emoções, raciocínio lógico (algo do qual nos orgulhamos muito) e com um certo sistema de regras e valores que nos são incutidos desde crianças, como é exemplo o bem e o mal e, George Martin joga com isso mesmo. Joga com o facto de todas as personagens serem humanas, com o facto de todas terem fraquezas e terem emoções. Por isso mesmo é que o leitor nunca chega a conhecer na verdade os personagens, nem mesmo aqueles que considera bons ou os seus preferidos. A qualquer momento, essas personagens se podem revelar ser aquilo que o leitor não esperava que fossem, porque isso é o que significa ser humano. E os seres humanos são manipuláveis em todas as circunstâncias, essa é a verdade.
O facto de o livro fazer grande ênfase no contexto político foi igualmente interessante, como já referi antes. Principalmente para perceber o que o poder, ou o desejo de ter poder, pode mudar nas personagens e nas personalidades dessas mesmas personagens. A ambição é uma coisa muito perigosa, especialmente se isso significa que se ambiciona controlar um reino inteiro e deter nas mãos o poder de mudar milhões de vidas sem ponderar possíveis consequências. É sempre interessante perceber do que é o ser-humano é capaz quando ambiciona algo que se encontra ao seu alcance.

E tudo isto são questões levantadas dentro de um universo fantástico como é o universo de Game of Thrones. Mais que tudo, adoro a forma como George nos mete a ponderar sobre tudo isto com uma mão cheia de personagens apenas. O enredo no geral foi bastante calmo, por assim dizer. Foi com poucos sobressaltos no caminho que se fez esta leitura agradável e que nas últimas páginas não falha em deixar os seus leitores a chorar por mais. Uma série que me surpreende a cada novo livro que leio.

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O Terror, vol.2

Na primavera de 1845, Sir John Franklin liderou uma expedição de dois navios e 130 homens numa viagem arrojada para o desconhecido Ártico. O seu objetivo: encontrar a lendária Passagem do Noroeste que, supostamente, ligara os oceanos Atlântico e Pacífico. Mas agora Franklin está morto e os dois navios estão fatalmente presos nas garras do gelo. As rações e o carvão escasseiam e os homens, mal preparados, lutam para sobreviver ao frio letal. À beira do desastre e a braços com loucura, motins e canibalismo, o capitão Crozier terá de tomar medidas drásticas para sobreviver. Mas ele sabe que o seu verdadeiro inimigo é bem mais aterrorizador. Existe algo à espreita nas trevas glaciais: um predador oculto que captura marinheiros e abandona os seus corpos na vastidão de gelo… O Terror é simultaneamente um romance histórico rigorosamente pesquisado e uma homenagem ao melhor que a literatura de horror ofereceu até hoje. Segundo Stephen King: “Um romance intenso, absorvente e arrepiante como só Dan Simmons podia escrever.”

ISBN: 9789896373573 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2011 – 388 páginas

O Regresso do Rei - Senhor dos Anéis, Vol.3

Para quem ainda não leu a primeira metade deste livro, O Terror vol.1, desaconselho a leitura desta opinião. Ler por própria conta e risco. 

Os navios HMS Erebus e HMS Terror encontram-se encalhados nas calotas polares há mais de dois meses e as tripulações estão a enfraquecer a olhos vistos, por falta de recursos e devido ao escorbuto, que a cada dia que passa se torna uma ameaça maior. Sir John Franklin, que comandava a expedição ao Árctico, morreu e ele não é o único homem desta tripulação a encontrar um fim cruel. Quem toma o controlo das duas tripulações é o Comandante Francis Crozier que vê a sua vida complicada ao ter que tomar decisões difíceis, de vida ou de morte. Quando o comandante decide abandonar os navios e tentar a sua sorte, indo ao encontro de socorro noutras coordenadas geográficas, é a  lutar pela sobrevivência e a fugir de um monstro que os persegue de perto, que estes homens rapidamente começam a dispersar as suas lealdades. Onde antes os homens se juntavam e lutavam pelo bem de todos em união, agora é cada um por si e a sobrevivência de um indivíduo é mais importante do que a sobrevivência do grupo. Com a comida a escassear, os próprios homens começam a olhar para a carne dos seus colegas tripulantes com desejo, para saciar a sua fome. A tripulação que vai sobrevivendo ameaça dividir-se a todo o momento e o inimigo pode ser qualquer pessoa, qualquer coisa.

Sendo que já estava estipulada que a leitura deste segundo volume do Terror seria feita logo de seguida a acabar a primeira parte, comecei com algumas expectativas esta última parte da aventura árctica. Tinha acabado a parte anterior com alguma insatisfação, visto que o autor não deu nenhuma resposta às minhas perguntas. As páginas recheadas de descrição têm o seu mérito, mas eu queria desesperadamente que esta última metade procurasse explorar melhor o ambiente em que as tripulações tiveram que, forçadamente, viver em condições cruéis (no mínimo). Já tinha referido na outra opinião que este livro é um relato de sobrevivência. Não se espera romantismo no relato, mas sim imagens nuas, cruas e frias da realidade em que esta tripulação de mais de uma centena de homens estava inserida. O ambiente desta obra é todo ele, frio e inóspito, para instilar desconforto no leitor. Como se o próprio leitor da obra estivesse encerrado no gelo há meses, com a comida a escassear e a ver o inimigo a cada passo que dá. Todos os passos são incertos. À medida que os homens vão avançando, são muitas as decisões (todas elas de vida ou de morte) que têm que tomar. Sem nunca terem cem por cento de certezas se estão no rumo certo. O que eles procuram é salvar-se e para isso, têm de dar aquilo que têm e também o que não têm. As doenças grassam e os homens estão fracos. Alguns são deixados para trás, aqueles que mal conseguem andar são carregados. As chances de sobrevivência são muito poucas, especialmente quando o ser-humano é presa de algo que persegue os homens dia e noite.
As lealdades são mutáveis como o vento. E aquele que consideramos amigo, vira o pior inimigo que nos pode devorar em segundos. As alianças quebram como o gelo debaixo dos pés destes homens cansados. O sol, que começa a aparecer aos poucos e poucos, não chega para aquecer os ossos. É um local esquecido por todos.

À semelhança da metade anterior, o livro está recheado de descrições ricas do cenário em que os homens se encontram e Dan Simmons prima pela sua dedicação em descrever todos os pormenores desta jornada de sobrevivência. O facto de escrever sobre o ponto de vista de variados personagens é uma vantagem, sendo que nos dá uma visão mais ampla de todos os personagens que são centrais à história. É sempre conhecer dois lados de uma questão e aqui o leitor tem uma variedade de opiniões, pensamentos e sentimentos. Também à semelhança da metade anterior, há um núcleo de personagens que é importante para esta jornada. Crozier, Dr.Goosdsir e Irving seriam as escolhas óbvias para mim. Coincidência ou não, foram desde início as minhas personagens favoritas. Para mim, foram a alma deste livro. São também, para mim, os representantes da “bondade” do ser-humano. Estes três personagens tentaram (à sua maneira única) representar aquilo que de bom a natureza humana tem. E certamente deixaram a sua marca na obra, com momentos muito intensos.
No extremo oposto, a representar tudo aquilo que a natureza tem de mais macabro, está o ajudante de calafate Hickey. Apesar de ser esperado que o leitor sinta ódio por esta personagem, tenho de dizer que além do óbvio nojo (sim sim, foi nojo puro) que tive por ele, também me fascinou de uma forma negra. Ele representa tudo aquilo em que o ser-humano se pode tornar em momentos de extrema pressão. Fascinou-me por me relembrar que todos poderemos ter dentro de nós estes mesmos instintos, pois afinal também somos animais. Racionais e dotados de pensamento lógico, mas animais no núcleo do nosso ser. Fez-me reflectir sobre se colocada na mesma posição, como iria eu reagir? Acho que este personagem é aquele que mais inspira à reflexão da nossa natureza humana.  Verdadeira reflexão. Não basta apenas ler as passagens em que este personagem entra e dizer/pensar: “que nojo, devias morrer. Nunca irei ser como tu.” Por esses motivos, foi – ao lado de Crozier, Irving e Goodsir – a personagem que mais marcas me deixou.

Este último volume, que acaba por dar aos seus leitores uma visão completa deste cenário, é ligeiramente melhor que o primeiro. Não só por ter mais nível de acção, mas também por ter as respostas desejadas ao qual o primeiro volume não conseguiu responder. Se antes pensávamos que havia demasiadas pontas soltas e demasiado mistério sem maneira de perceber onde acabam as perguntas e começam as respostas, agora vemos o puzzle a ser resolvido página a página. Foi uma leitura mais frutífera nesse sentido e também porque é um livro que traz à luz as nossas vulnerabilidades como ser-humano. A dimensão humana – com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos – está sempre presente neste volume e de uma forma bem mais óbvia do que no primeiro. É uma verdadeira luta pela sobrevivência do mais apto. Esta metade agarra de forma mais notória, a atenção dos leitores e por isso tenho que dizer que em termos gerais, prefiro este segundo ao primeiro. Parece ter existido um amadurecimento mais rápido da história e a narrativa fluiu de forma mais interessante e dinâmica.

Não posso deixar de recomendar esta obra, na sua totalidade, aos leitores que gostam de um romance salpicado de emoções fortes, com a natureza humana no seu melhor – e no seu pior.

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O Terror, vol.1

Na primavera de 1845, Sir John Franklin comanda uma expedição de dois navios e 130 homens numa viagem arrojada para o distante e desconhecido Árctico. O seu objectivo: encontrar e mapear a lendária Passagem do Noroeste que, supostamente, ligará os oceanos Atlântico e Pacífico.
Dois anos depois, a expedição, que começou sob um espírito de optimismo e confiança, enfrenta o desastre. Franklin está morto. Os dois navios (o Erebus e o Terror) estão fatalmente presos nas garras do gelo. As rações e o carvão escasseiam e os homens, mal preparados, lutam diariamente para sobreviver ao frio letal. Mas o seu verdadeiro inimigo é bem mais aterrorizador. Existe algo à espreita nas trevas glaciais: um predador oculto que captura marinheiros e abandona os seus corpos na vastidão de gelo…

ISBN: 9789896373290 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2011 – 316 páginas

O Hobbit

Estamos em 1845: Dois navios e 130 marinheiros, divididos entre duas tripulações partem de Londres para uma expedição no Árctico. Sir John Franklin comanda esta expedição e os navios HMS Erebus e o HMS Terror; sendo que Francis Crozier, é o comandante deste segundo navio. As ordens para esta expedição são claras – estes dois navios devem navegar até à Passagem do Noroeste até ao Canadá, descobrindo, mapeando, explorando o suposto Mar Aberto Polar. Consigo levam comida e recursos que permitem que os homens sobrevivam durante 3 anos em condições muito exigentes. Afinal, vão partir para uma das zonas mais inóspitas do planeta e vão enfrentar temperaturas negativas que chegam até aos -40 graus. A expedição começa de uma forma calma e os marinheiros estão entusiasmados com a experiência. Contudo, rapidamente se dão conta de que os dois navios encalharam no gelo e assim começa a sua hibernação num dos piores lugares do mundo. Sem nenhuma alternativa se não esperarem por um eventual degelo, os marinheiros preparam-se para (sobre)viver num inverno muito rigoroso. Mas também perigoso, pois após os navios ficarem presos nas camadas de gelo, as tripulações começam a ouvir barulhos estranhos e ficam sem saber com quem é que estão verdadeiramente a lidar: se com o gelo e as temperaturas negativas ou algo mais. A ficar sem recursos alimentícios e sem carvão para se aquecerem, os homens vêem-se aterrorizados a lutar pela sobrevivência num universo completamente horrorífico.

Como o título do livro indica, esta é a primeira metade da obra O Terror da autoria de Dan Simmons. E é o segundo livro deste autor que eu leio. O primeiro, com o título A Canção de Kali, não me tinha impressionado muito. Mas sabia que a escrita do autor seria fluída e desafiadora, por isso, as minhas expectativas quanto a este Terror eram até elevadas. E como já estava à espera, gostei desta experiência. Como disse, o tom de escrita do autor é muito desafiador no sentido em que mantém o leitor preso, cativo da sua narrativa. Sendo que ele escreve dentro do género do horror e do fantástico, estava à espera de uma narrativa recheada de mistério e de emoções fortes. Bem como acontecimentos sinistros. Encontrei isso mesmo. Após ter lido as primeiras páginas decidi que devia ir pesquisar sobre o acontecimento verídico no qual o autor se baseou para escrever esta história. Fiquei fascinada com os resultados da minha pesquisa. E muito, muito curiosa, porque já me tinha apercebido logo às primeiras páginas, que o autor tinha introduzido um elemento de horror de uma forma muito subtil mas muito inteligente. Depois da pesquisa que efectuei, confesso que voltei à minha leitura com novos olhos. E com vontade de olhar sobre o ombro.

Imaginem a desolação deste cenário – para onde olhem, só vêem gelo e quietude. Só ouvem ruídos que vos são estranhos. Estão presos, sem maneira de fugirem deste cenário inóspito e gelado. À noite, os ruídos que ouvem são diferentes. São assustadores, intrusivos. Um arrepio sobe-vos pela espinha, o medo faz-vos suar apesar de a temperatura ser de 40 graus negativos. Os vossos colegas marinheiros começam a ser mortos das maneiras mais horroríficas possíveis e é impossível adormecer à noite sem pensar na possibilidade de serem vocês os próximos a ser devorados pelo monstro que vos persegue  e que está a controlar todos os vossos movimentos. A juntar a este sentimento de inquietação, o escorbuto começa a enfraquecer toda a população destes navios. Metade dos vossos recursos alimentícios está estragado e já não tem carvão para se aquecer. O terror instala-se e a vontade de sobreviver é a única que vos mantém conscientes e preparados para lutar.
Dan Simmons consegue, com a sua escrita, transportar-nos para esse cenário de forma convincente. Com muito pouco esforço, devo dizer. O seu relato é tão intenso e tão descritivo que é impossível que o leitor não crie na sua mente, uma imagem muito forte deste palco de acção. A cada linha que ele escreve, é notável a pesquisa e a forma como o autor se informou sobre este acontecimento. E com a sua pesquisa, acaba por manipular esse mesmo acontecimento de uma forma muito inteligente e eficiente, de forma a que o leitor comece a pensar que foi assim mesmo que as coisas se sucederam.

Para misturar ficção e realidade é preciso ter alguma mestria, na minha opinião. Dan Simmons fá-lo com tanta facilidade que, enquanto estou a ler,  dou por mim a pensar que este relato fictício poderia ser uma realidade bastante provável. É maravilhoso pensar que o autor consegue esbater de tal forma as fronteiras entre realidade e ficção que eu própria dou por mim a confundir os mundos e as dimensões.
Esta expedição, foi na realidade, um testemunho de sobrevivência. E o que o autor aqui relata é isso igualmente, mas de uma forma mais assustadora e cruel. Porque a juntar à luta pela sobrevivência no gelo, temos algo monstruoso que persegue estas tripulações. Algo para o qual eles não têm defesa alguma. E isso entra numa dimensão de sobrevivência completamente diferente. Este é um cenário onde o ser-humano é que é a presa, não o predador. E o mais apto sobrevive, como Darwin nos relembra a cada página que passa.

Embora a falta de respostas seja algo aborrecido (queria mais informações sobre o que realmente se está ali a passar e sinto que o autor negligenciou a verdadeira ameaça que estes homens enfrentam) sei que ainda só li a primeira metade do livro, e portanto não posso julgar o livro na sua totalidade. Contudo, este primeiro volume convida à leitura imediata do segundo e último volume, porque como disse, este é um relato de sobrevivência em condições extremas e sem ler o segundo volume, é fácil perder o fio à meada. Convidaria até à leitura seguida dos dois volumes, pois daí sairá uma leitura mais frutífera. Acabei esta leitura com vontade de saber qual será o destino destes homens. E espero que o segundo (livro que já me encontro a ler a toda a velocidade) traga respostas às tantas perguntas que tenho sobre o que realmente se passa neste mundo gelado.

Para aqueles que gostam de uma mistura entre o horror, mistério e uma pitada de fantasia, creio que esta leitura poderá ser uma boa aposta. Eu sinceramente, fiquei surpreendida com a primeira metade. E tenho quase a certeza de que assim será com o segundo.

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Para mais opiniões do autor, ver aqui.