O Último Cabalista de Lisboa

Em Abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de 2000 cristãos-novos foram mortos num pogrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio. Reinava então D. Manuel I, o Venturoso, e os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem a causa da fome e da peste que flagelavam a cidade. Os Zarco, uma família de cristãos-novos residentes em Alfama, tinham como patriarca Abraão Zarco, iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa. Depois do pogrom, Berequias Zarco, sobrinho e discípulo de Abraão, vai encontrar o tio e uma jovem desconhecida mortos numa cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um e outro estão nus e banhados em sangue. Estranhamente, a porta está fechada por dentro. Um manuscrito iluminado, recentemente terminado por Abraão Zarco, em que os rostos dos seus vizinhos e amigos representam personagens bíblicas, desapareceu do seu esconderijo secreto. O assassino teria sido um cristão ou, como os indícios fazem crer, outro judeu? Quem seria a rapariga morta? Estaria o rosto do assassino representado no manuscrito roubado?
“O Último Cabalista de Lisboa” é um extraordinário romance histórico tendo como pano de fundo os eventos verídicos desse mês de Abril de 1506 e pode ser lido a vários níveis, na tradição de um verdadeiro livro cabalístico.
ISBN: 9789724151878 – Oceanos (Leya) / 2009 – 383 páginas

O Último Cabalista de Lisboa é o primeiro de 4 volumes de uma série de romances históricos, intitulada The Sephardic Cycle. Da restante série, sei que o volume 2 e 3 – Meia Noite ou o Princípio do Mundo e Goa ou o Guardião da Aurora – são muito difíceis de encontrar. Já o volume 4 foi editado pela Oceanos com o título A Sétima Porta
O que é que estes quatro volumes têm em comum? Todos falam da Inquisição, de uma maneira ou de outra. 
Mas O Último Cabalista de Lisboa, livro que marca o início desta série é aquele que interessa falar para já. O livro conta-nos a história de Berequias Zarco, um judeu que vive na Lisboa de 1506, disfarçado, por assim dizer. Ao mesmo tempo tenta sobreviver à perseguição que os cristãos fazem ao seu povo, bem como tenta descobrir o assassino do seu tio e mestre espiritual, Abraão Zarco que foi encontrado morto na cave da sua casa, em circunstâncias não só inapropriadas bem como chocantes, até certo ponto. 
Berequias acredita que o seu tio foi assassinado por alguém da sua confiança e que traiu o seu estatuto de cristão-novo e assim, o jovem acaba por fazer uma promessa a si próprio e essa é desvendar este mistério que rodeia a morte do seu mestre e que com isso, consiga levar a sua família em segurança para fora de Portugal, para longe da Inquisição e para longe da perseguição aos judeus.

Este não é o primeiro livro que leio do autor. A minha estreia fez-se com a obra Anagramas de Varsóvia, que embora tenha sido um livro que tenha gostado de ler, não me marcou completamente por diversos factores. 
Contudo, este livro de que falo hoje, já se encontrava há bastante tempo na minha lista de interesses e, por isso, quando tive a oportunidade de o ler, foi com entusiasmo que comecei a leitura. 
Nos últimos 2 dois anos, o meu interesse por ficção histórica tem vindo a crescer de forma exponencial. Aprecio um bom romance histórico, que tenha ênfase na pesquisa. 
Embora sempre tenha gostado de História, não consigo perceber porque é que não adorava este género literário. Mas finalmente, tenho-me apercebido que ando mais inclinada para ler este tipo de livros e que tiro imenso prazer de algumas lições que me dão. Acabo por aprender várias coisas e ao pesquisar no após-leitura, mais valor dou à obra. Na verdade, se não fosse esta obra de Richard Zimler não creio que pudesse interessar-me de forma tão inocente na temática da Inquisição, do judaísmo e a contextualização social do nosso país no século XVI.
Ainda mais depois de saber que o autor se baseou num relato verídico para escrever/transcrever os acontecimentos de um jovem judeu que vivia na Lisboa que nós hoje só conhecemos por gravuras e livros.  

Esta determinação de Berequias para encontrar o assassino do seu tio está presente em todo o livro e as descrições da Lisboa desse tempo são apaixonantes. Não apaixonantes o suficiente para eu querer lá dar um pulo e saber na pele como era a vida naquela altura, mas apaixonantes o suficiente para que a minha imaginação pudesse voar. Nunca me deixa de fascinar a riqueza cultural do nosso mundo.
E se, porventura, tivesse que escolher duas palavras para descrever esta obra seriam essas, porque de facto, este livro para mim é uma riqueza cultural. Existe riqueza cada vez que lemos sobre a nossa cidade e reconhecemos alguns nomes que nos passam pelos olhos. E é impossível não fechar os olhos e tentar pintar o cenário que seria o Rossio no século XVI, as muralhas da cidade na altura. 
Para quem não conhece muito bem o judaísmo (como eu) também tem a oportunidade de entrar num mundo completamente diferente e começar a abraçar realidades diferentes, outras culturas, outras crenças. E apesar desta não ser uma obra religiosa, é impossível negar que a religião é o centro do livro e é também o símbolo que detém o poder nesta sociedade de que se fala.
O mistério que se entrelaça com os outros aspectos da narrativa foi também um elemento motivador da leitura. Confesso que fiquei surpreendida com o desenvolvimento dos acontecimentos.

Contudo, o que mais me tocou foi o facto de este relato ter sido escrito por alguém que já caminhou pela cidade de Lisboa, alguém que por ter uma crença religiosa diferente foi perseguido como um animal quase. Alguém que existiu. Alguém que amava Portugal, que considerava Lisboa o seu lar, mas que foi obrigado a dizer adeus aos símbolos que tanto amava. Aí sim, reside a preciosidade que este livro oferece aos seus leitores.

Alguém que merece ser recordado.

   

Advertisements

Opinião – A Princesa do Gelo

Opinião:
“A Princesa do Gelo”. Um título cativante. Uma capa ainda mais atraente. Conjugando com isto tudo, um nome nórdico, promete com certeza um bom policial. Já tinha várias vezes ouvido falar desta autora que é referenciada como sendo a Agatha Christie do frio. Tenho de confessar que apesar de ter achado a premissa muitíssimo interessante, não me sentia disposta a investir em mais outra série. Para quem já me acompanha, sabe perfeitamente que eu acompanho mais de duas dezenas de séries, pelo que hoje em dia, tento restringir um pouco a proliferação de novas séries nas minhas estantes.
No entanto, é impossível resistir quando uma pessoa que se revê nos nossos gostos literários e vice-versa,  lê e adora os primeiros dois livros da série Patrik Hedström e refere de forma casual e subtil o quanto, certamente, iríamos gostar das obras.
Na minha opinião e contrariamente ao que digo quase sempre dos primeiros livros de uma série, este foi um óptimo começo, pelo que as expectativas irão ter tendência a aumentar para os restantes volumes.
Não vou fazer nenhuma descrição alargada do enredo, porque acreditem quando digo que a sinopse fala por si.
Vou sim, dizer que gostei imenso desta experiência e mal vejo a hora de a repetir. O segundo volume desta série já se encontra na mesa de cabeceira à espera de vez.
Gostei da escrita da autora, apesar de ela ter um ritmo muito inconstante. Isto porquê? Ora escreve de forma vagarosa – onde o leitor se vê a par com as partes mais tranquilas de um policial, ora de forma frenética – onde se descobrem várias coisas ao mesmo tempo cheias de significado. É óbvio que todo o livro policial tem de ter momentos destes, mas nunca tinha notado uma diferença de ritmo tão acentuada como neste livro.
Por um lado pode ser uma óptima característica, na medida em que a autora não é previsível e deixa os seus leitores sempre na expectativa de serem surpreendidos.
Por outro lado, não permite que a leitura seja feita de forma fluída. Ambas as situações aconteceram comigo. Por um lado, senti-me sempre na dúvida, sem certeza do que realmente poderia acontecer; por outro não me sentia impelida a “devorar” o livro e este foi um dos livros que mais tempo levei a ler.

Agora, quero debruçar-me sobre outro aspecto de extrema importância para mim. A comparação entre Agatha Christie e Camilla Läckberg. Bem, agora que já li ambas as autoras, posso e devo dizer-vos que para mim não existe comparação possível. Agatha é uma das minhas autoras favoritas dentro deste género e quem eu considero a verdadeira mestre na escrita policial. Para mim, é errado fazer este tipo de comparações por motivos de marketing ou publicidade. Cada autor tem a sua cunha pessoal e para mim é algo preocupante quando dois seres humanos são comparados (não interessa que as intenções sejam boas/más). Todos nós somos diferentes e todos nós temos as nossas características melhores e piores. E acho verdadeiramente de mau tom, quando estas comparações são feitas no mundo literário. Porque para mim ambas as autoras são fantásticas. Por isso, não, não considero que a Camilla possa alguma vez ser comparada a Agatha. Primeiro, porque a questão temporal é crucial. Agatha alcançou o sucesso com a sua série “Poirot” em 1926. Camilla é uma escritora do século XXI, com uma formação e educação completamente diferente das que Agatha teve. Como é possível existir este tipo de comparação em tempos claramente tão distintos? É errado.
As próprias estruturas da trama são tão diferentes que não existe manobra para qualquer tipo de comparação.
Agatha foi uma inovadora neste género literário, Camilla não, pois hoje em dia o mercado está saturado de tanto livro, em praticamente todos os géneros que é difícil alguém ser inovador. Já se fez de tudo. Acaba por estar tudo ligado a questões temporais, por isso, é que nunca poderá haver uma base de comparação: seja entre estas duas autoras, seja entre quaisquer outros autores.

Se pensarmos bem, existem muito poucas parecenças: o facto de ambas as séries terem protagonistas, investigadores, masculinos. Ambas escrevem policiais. Mas estas são as únicas. 

Um é um investigador privado, outro é polícia. Um é belga, outro é sueco. 
Claro que não quero com isto dizer que Camilla não tem qualidades. Muito pelo contrário. É uma autora que mesmo sendo inconstante escreve com uma perícia como nem todos conseguem fazer transparecer. Mantém o leitor na expectativa e sempre com o cérebro a trabalhar a mil à hora, tal é a ansiedade de descobrir o que se passa por trás das aparências. 
Por isso mesmo, estou ansiosa de ler mais livros desta série. E principalmente, para saber como é que a autora vai pegar nos personagens que neste livro nos apresentou e, saber também como os vai desenvolver. 
Mas não poderá haver comparações, porque para mim, Agatha é especial e uma mestre no seu campo, no tempo em que viveu e deixou a sua marca. Camilla também é especial e deixa outra marca também, mas no seu respectivo espaço temporal. Cada qual tem um talento maravilhoso e os livros são tentações, sendo elas, no entanto, personalidades diferentes, mentalidades distintas e individuais. Logo, não devem ser comparadas.

Este primeiro livro apenas peca pelo tal ritmo inconstante, que é para mim um detalhe fundamental e um dos factores que mais influencia a minha experiência de leitura.

Para quem gosta de policiais, garanto-vos que este livro é para vocês.   



Opinião – A Rainha no Palácio das Correntes de Ar

 
Opinião:
E cá estamos finalmente, para falar do Millenium 3.
Primeiro que tudo, adorei o livro (eu sei que já não é novidade nenhuma este adjectivo ser usado para estes livros). Apesar de ser um livro mais parado, com outro ritmo e outro estilo, é um livro fenomenal como o autor nos habituou com as duas anteriores obras.
Eu vi este livro de uma maneira muito simples, mas no entanto, muito atractiva:  uma luta entre o Bem e o Mal.

Eu pessoalmente adorei toda a planificação da estratégia que cada pessoa teve de fazer para que tudo corresse da melhor maneira.
Adorei ver que a Lisbeth tem muitos mais amigos e pessoas que estão dispostas a apoiá-la do que aqueles que ela pensa. Apesar de ela ter uma personalidade única, é mesmo muito bom ver que ela tem muita gente que gosta dela por aquilo que ela é.

Cada personagem teve um papel a cumprir neste plano para ajudar a Lisbeth e todos foram extremamente bem sucedidos e estiveram todos muito bem. A única ausência que acho que foi muito notável foi o Paolo Roberto e a Miriam Wu, que são pessoas que são importantes na vida da Lisbeth e este livro como é todo ele focado no passado, no presente e no futuro da Lisbeth, acho que deveriam ter tido um papel em toda esta luta para limpar o nome dela.

O livro toca todo ele em assuntos muito sensíveis, mas que não me deixaram de fascinar. Posso ser sincera, quando digo que a politica não é assunto que me fascine (na prática – na teoria, já é outra coisa) e no entanto vi-me constantemente surpreendida por o autor ter feito da política um assunto interessante. Por outro lado, é incrível ver que na verdade isto poderia acontecer a qualquer pessoa – os interesses do governo ou de uma entidade do governo (mesmo que este não tenha conhecimento dela) serem mais importantes do que a vida de um ser humano.
Estes escândalos já podem ter tido lugar na vida real e foi isso que eu mais gostei neste livro – a possibilidade de isto alguma vez acontecer a uma pessoa é horrível, mas nem por isso deixa de ser verdadeira. Mesmo que um pouco obscura, inacreditável e muito injusta são atitudes que existem pelo mundo fora. 


Digamos que podemos ver as coisas desta forma: os interesses de pessoas que são qualificadas de importantes, submetem-se, muitas vezes, à vida de uma inocente e de uma espectadora na escolha de vida de outras pessoas. As pessoas que são dotadas de um egoísmo fascinante e que conseguem manipular a vida de uma pessoa – bem, nem consigo começar a ponderar as consequências dos actos. Nem consigo imaginar o tipo de pessoa que tem a presença de espírito para fazer algo semelhante a outro ser-humano.

Achei este livro completamente fascinante por causa disso. A Lisbeth nunca teve uma vida normal, porque interesses alheios assim o decidiram e é imperdível, ver como é a Lisbeth lida e luta contra isso.

Este livro só peca por uma característica, que por acaso, no segundo livro não foi tão visível. Algumas características de uma das personagens principais – Mikael Blomkvist – irritam-me sobremaneira e temos em alguns aspectos, pontos de vista tão opostos quanto é possível. Por vezes foi difícil aceitar as atitudes dele, porque gosto dele como personagem e acho que poderia ser melhor aproveitado. 


Mas de resto, estes três livros são sem dúvida, fenomenais! Quem ainda não leu esta trilogia, não pode imaginar o que está a perder. 

Opinião – A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo


PODE CONTER ALGUNS SPOILERS.
Opinião:
Hoje vou falar-vos um pouco sobre este Millennium 2, A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

Bem, numa palavra adorei (tal como adorei o livro anterior). Posso dizer que gostei mais deste segundo livro do que do primeiro.
Se o primeiro livro me conseguiu confundir, imaginem este. O grau de intriga é muito maior. As ligações entre cada personagem é muito mais interessante e descobrir qual vai ser o desfecho para todas elas é uma aventura sem igual. Mas é um confundir bom, para que tenham sempre presente que este livro foi uma boa surpresa a todos os níveis.

Gostei mais deste livro por várias razões, mas posso mencionar à partida, uma delas: uma das personagens principais, Mikael tem algumas atitudes que me irritam no primeiro livro – digamos que é mais um estilo de vida, vá. Neste livro não se nota tanto esses traços de personalidade e por isso, este livro é muito mais interessante. O leitor está completamente focado nos acontecimentos relatados, em termos de mistério e história.

Nunca, nem nos meus melhores dias eu conseguiria adivinhar a ligação entre a Lisbeth e alguns dos personagens que integram este segundo volume da Trilogia Millenium (nomeadamente o Zala, o Bjurman, o Teleborian e ainda o polícia, Bjorck). Para quem já leu, sabe a que me refiro. Foi preciso puxar muito pela cabeça e aguentar as dores no braço (do peso do livro) para perceber que ainda havia ali muito que explicar e que nem tudo o que parecia, de facto, era.

Este livro fez-me pensar imenso em como num simples acto de pessoas egoístas e egocêntricas pode condenar a vida de uma pessoa, uma inocente.
Bem, a Lisbeth acaba também por ter a sua quota-parte de culpabilidade. Como o Palmgren, o seu primeiro tutor, disse :
“A Lisbeth é mesmo violenta e existe qualquer coisa nela que não funciona muito bem. ”

Mas apesar de tudo, já tentaram imaginar o que é uma pessoa, ou melhor um conjunto de pessoas completamente malvadas decidirem juntas a vossa vida só porque querem proteger os seus interesses próprios?! Horrível! Mas dá muito que pensar, no entanto.
Para mim, foi um dos pontos fortes deste livro. Agora estou francamente ansiosa para saber o que se vai passar com o próximo livro. Claro que vai ser um livro muitíssimo interessante, já estou à espera. As expectativas são de facto muito elevadas.

Só espero que acabe, se não com um final definido, que pelo menos não acabe tudo em aberto.
Estou receosa que o final do 3º livro deixe tudo em aberto, visto que o suposto era existirem mais livro do apenas e só estes três, não tivesse ocorrido uma fatalidade como a que veio a suceder-se.

Gostava de sentir que – sendo que não haverão mais livros do autor – encerrei uma trilogia poderosa, fantástica, com o sentimento de que as coisas acabaram mesmo e que as personagens não ficarão ali num tempo indefinido com os seus futuros desconhecidos.