Uma Morte Súbita

Pagford é uma idílica cidade inglesa, com uma praça principal em pedra de calçada e uma antiga abadia. No entanto, este belo cenário não passa de uma aparência que esconde uma cidade em guerra. Os ricos em guerra com os pobres, os adolescentes em guerra com os pais, as mulheres em guerra com os maridos, os professores em guerra com os alunos… Pagford não é o que parece à primeira vista. A história começa quando Barry Fairbrother, membro da Assembleia Comunitária, morre aos quarenta e poucos anos. Pagford entra em estado de choque e o lugar que ficou vazio torna-se o catalisador da guerra mais complexa que já alguma vez ali se viveu. No final, quem sairá vencedor desta luta travada com tanto ardor, duplicidade e revelações inesperadas?

ISBN: 9789722349321 – Editorial Presença / 2012 – 494 páginas

O Hobbit

Tudo começa com a morte súbita do vogal Barry Fairbrother da Assembleia da pequena cidade de Pagford. Ninguém estava à espera que isto acontecesse, muito menos nas circunstâncias em que esta morte se deu. A comunidade desta cidade inglesa fica abalada, pelas melhores e piores razões. Uma morte assim faz pensar na vida, nos tempos que achamos que temos pela frente e que nos são retirados de um momento para o outro. Mas por outro lado, uma vaga súbita na Assembleia é um palco e uma oportunidade perfeita para alguns membros desta comunidade e assim a cidade de Pagford vê-se envolvida numa luta de vontades que se revela muito mais do que apenas o preencher de uma vaga da Assembleia.

Já todos conhecemos este nome da literatura inglesa contemporânea e todos sabemos o quanto este livro deu que falar na esfera literária. É um nome que dispensa apresentações e foi com um entusiasmo febril que os fãs da autora receberam este seu novo lançamento. Já muito se escreveu sobre esta obra. Há quem diga mal e há quem diga maravilhas. Estes livros que rapidamente se tornam um fenómeno são sempre assim, não dá de maneira nenhuma para agradar a gregos e a troianos. Na altura em que o livro saiu e era uma novidade fresquinha, vi muitas opiniões que se referiam ao facto deste regresso de Rowling ter sido uma desilusão. Não querendo contrariar a opinião pessoal de ninguém, nem os seus gostos, tenho que admitir que a desilusão deve ter sido por razões que não se prendem com o livro em si.
Dá-me a parecer que alguns leitores não se conseguem dissociar do nome que Rowling criou para si como criadora de Harry Potter. E talvez por isso não olhem para este livro como ele merece ser olhado. Para mim, um grande escritor é aquele que (além de outros factores) consegue variar o seu estilo de escrita e é aquele que se move com conforto em várias áreas da literatura. O que interessa escrever 7 grandes livros de fantasia juvenil se só soubermos escrever sobre isso a vida inteira? O sucesso já foi atingido, é preciso é talento para manter esse mesmo sucesso.

Foi por isso que abri este livro a pensar que isto seria uma autora que estaria a experimentar pela primeira vez. Não sabia ao que ia e apesar de estar extremamente curiosa, não construí nenhum tipo de expectativas para esta leitura. Não podemos pôr um autor num altar e depois trucidá-lo quando ele tenta criar algo diferente, apenas porque estamos habituados a vê-lo num certo registo. Uma Morte Súbita tem um início algo… estranho, diria. A primeira abordagem ao livro dá a parecer que será um livro de difícil leitura, pesado, até um pouco maçante.
As primeiras 50 páginas deixaram-me realmente um pouco hesitante na leitura. Temos muitas personagens para conhecer e a autora está a apresentar-nos um mundo que nos é desconhecido, mas ao mesmo tempo familiar. Pensei inclusive que não estava a perceber o que é que a autora queria atingir com aquele início – seria isto um thriller ou apenas um conjunto de circunstâncias estranhas com muita asneira à mistura?

Mal passou esse período de adaptação, comecei a entranhar-me nesta pequena comunidade de Pagford e comecei a interessar-me realmente nas pessoas que a autora nos estava a tentar dar a conhecer de uma maneira muito particular e muito intimista. Já tinha investido algo de pessoal na leitura, apenas porque senti uma ligação àquele universo fechado que é uma pequena cidade. O que a autora fez nesta obra foi pegar numa comunidade inglesa e descrever na perfeição uma micro sociedade incrivelmente realista. Entramos de rompante na vida destes personagens e deixamo-nos arrastar para o seu dia-a-dia que é feito de pequenos desafios. A autora poderia estar a descrever a vida de qualquer um dos habitantes deste planeta. Esta micro sociedade que ela criou tem tudo – até as discrepâncias entre ricos e pobres. Está cá tudo, inclusive descriminação racial e económica. Fico sempre admirada quando os autores conseguem capturar na perfeição esta que é a nossa dimensão humana. Todos os nossos defeitos, tudo aquilo que nos move.

Este livro captura de uma forma incrivelmente certeira tudo aquilo que nos caracteriza como humanos, seja isso o bom ou o mau que vive dentro de todos nós. Mais incrível que tudo é apercebermo-nos de como um acontecimento quase “casual” (afinal morrem pessoas todos os dias) cria este rol de acontecimentos verdadeiramente estonteante.
Para mim este é um retrato social muito bem construído e a forma como a autora escolher expor este cenário por vezes degradante, foi muito inteligente. Também tenho noção que não será um livro de que toda a gente gostará, mas para mim, foi um livro que me fez parar para pensar nisto de ser humano.

E se há livros que me ficam na memória, são mesmo aqueles que me fazem parar para pensar. É um livro que para mim, vale verdadeiramente a pena ler.

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