Expiação

No dia mais quente do Verão de 1935, Briony Tallis, de 13 anos, vê a irmã Cecilia despir-se e mergulhar na fonte que existe no jardim da sua casa. 

É também observada por Robbie Turner, um amigo de infância que, à semelhança de Cecilia, voltou há pouco tempo de Cambridge. Depois desse dia, a vida das três personagens terá mudado para sempre. Robbie e Cecilia terão ultrapassado uma fronteira que, à partida, nem sequer imaginavam e tornar-se-ão vítimas da imaginação da irmã mais nova. Briony terá presenciado mistérios e cometido um crime que procurará expiar ao longo de toda a sua vida. 

Expiação é, porventura, a melhor obra de Ian McEwan. Descrevendo de forma brilhante e cativante a infância, o amor e a guerra, a Inglaterra e a situação de classes, contém no seu âmago uma exploração profunda – e muito comovente – da vergonha, do perdão, da expiação e da dificuldade da absolvição.


ISBN: 9789726628224 – Gradiva / 2002


Expiaçãoacto ou efeito de expiar. Cumprimento de pena ou castigo. Sacrifício expiatório. Penitência
Um simples desentendimento pode provocar uma catástrofe, que seguido de  uma reacção de efeito dominó, pode acabar por mudar o destino. O mínimo distúrbio, a mínima acção dúbia pode perturbar o caminho que achamos que foi escrito para nós. Tudo aquilo que conhecemos, deixa de o ser. Caímos num abismo desconhecido, sem conhecer o que o futuro nos reserva. A terra fugiu-nos de debaixo dos pés.

Estamos em 1935, poucos anos antes da Segunda Guerra Mundial dar início a uma das épocas mais conturbadas e complicadas da história do nosso planeta. 
Cecilia Tallis, acabou de retornar licenciada da faculdade e decide ir passar o verão a casa, junto da família que adora. Sem perspectivas para o futuro (na altura, as licenciaturas das mulheres não eram reconhecidas), Cecilia sente-se irrequieta e aborrecida na sua casa de infância. No entanto, também não sente vontade de partir. E portanto, acaba por se ir arrastando, conforme os dias quentes vão passando. Na tarde em que iria receber a visita do seu irmão mais velho – Leon – Cecilia dirige-se à fonte do jardim de sua casa, para encher uma jarra de água para lá colocar flores. Acaba por se cruzar com Robbie Turner nessa mesma fonte, amigo de família que conhece desde rapaz. Com personalidades que se contrastam, estes acabam por ter uma discussão que é tanto insignificante quanto sem sentido e a jarra valiosa acaba por se partir, sendo que alguns pedaços da mesma acabam por se afundar na fonte. Cecilia, por motivos egoístas, decide mergulhar na fonte, somente em roupas interiores, para recuperar os pedaços da jarra. Este momento, que poucos minutos durou, seria para sempre uma recordação tanto doce quanto amarga no espírito de cada um deles.
Isto porque, na janela do quarto de brincar no segundo andar da casa encontra-se a irmã mais nova de Cecilia, Briony que assistiu a toda esta cena e, recorrendo à sua mente ágil e fértil de criança acaba por criar uma história fictícia com base no acontecimento junto à fonte. E ao fazer isto, acaba por cometer um erro de julgamento que traria muitas mudanças não só à vida de Cecilia e de Robbie, mas também à sua própria. 

Mas o que levou a que Briony a cometer tal falha de julgamento? Foi uma acção completamente inocente, fruto de ignorância infantil? Ou haveria por trás motivos egoístas, premeditados? Mesmo sem existir uma resposta absoluta que possa responder a estas perguntas, a mesma nunca mais terá descanso nem paz interior, pois após ter passado a fase de infância, começa lentamente a perceber qual foi o seu papel no futuro de Cecilia e igualmente de Robbie. E no erro enorme que cometeu. 

Agora que acabei esta leitura, nem acredito que tive tanto tempo a adiar a mesma. Apesar de sempre ter tido alguma curiosidade quanto a esta obra, a indecisão acabou por levar a melhor e acabei por passar muito tempo sem tirar um tempo para ler e ver o que este livro me poderia oferecer. Recentemente, decidi que seria este ano que daria, finalmente, hipótese a este livro e cheguei à conclusão que tenho muita pena de não o ter descoberto há bem mais tempo. 
Apesar de conhecer o nome do autor, nunca antes tinha lido nada dele e por isso, achei que Expiação seria um bom livro para começar. Assim sendo, embora este obra seja bastante aclamada por esse mundo fora, as minhas expectativas não eram as mais altas e acabei por sair muito surpreendida desta leitura. Não sei realmente o que esperava deste livro, mas o livro preencheu e superou qualquer expectativa que eu pudesse ter tido em qualquer momento da minha leitura e revelou-se uma estreia sem igual.
A escrita do autor, nas primeiras 50 páginas mostrou ser diferente daquilo que tenho vindo a encontrar noutros autores e por isso mesmo, após o período inicial de adaptação que tive, fiquei cativa da sua narrativa fluída e apaixonante. Não só o autor trabalha muito bem o enredo, como também mostra intensidade em cada linha, em cada descrição, em cada momento, em cada gesto que nos faz imaginar nas nossas próprias mentes. Esta intensidade, permitiu que entrasse da melhor forma na história – andei pelas ruas de Londres lado a lado com Briony, percorri França com Robbie, sofri com ele e com a injustiça de que foi alvo e angustiei com Cecilia. Senti cada palavra de amor roçar-me a pele, como se a mim me fosse dirigida, senti cada pensamento infeliz que Briony teve ao longo do seu percurso, tal como se fossem os meus. Vivi a Segunda Guerra Mundial pela perspectiva de cada um destes personagens. 

As três personagens principais são tão brilhantemente exploradas que dei por mim a esquecer-me convenientemente que estes são personagens puramente ficcionais. Robbie, homem sonhador, cheio de paixão e amor para oferecer a Cecilia. Humilde, com mil ambições e um homem com um carácter forte, incansável sempre. Cecilia, também uma mulher forte e a qual acabou por me arrancar várias vezes um sentimento de admiração, pelas atitudes que tomou. Um carácter igualmente forte e uma mente esperançosa que encheu o meu coração com uma melancolia imensa. 
E finalmente, Briony, que no início se mostra não ser mais do que uma criança egoísta, envolta em fantasias e criações da sua mente, que não distinguindo a ficção da realidade, acaba por cometer um crime que não tem volta atrás. No entanto, Briony adulta, acaba por se revelar uma personagem diferente e mais interessante. Inspirou o sentimento de pena, de revolta… mas no fundo, também acabou por inspirar sentimento de justiça. O ponto de vista dela foi aquele que mais me fez reflectir nas acções que tomamos precipitadamente e que se podem revelar os maiores erros da nossa vida. 
Fez-me pensar nos inúmeros actos que em criança fizemos, na total ignorância em que nos mantemos, referente ao porquê de tal acto. E quanto totalmente ignorantes somos do facto, das consequências que tal atitude pode ter, não só na nossa vida, como na vida das pessoas que nos são mais próximas.

Um romance que descreve maravilhosamente o sentimento, por vezes egoísta, que reflecte partes da infância. Que descreve de forma brutal e real, o ambiente e as consequências da guerra. Que descreve de uma forma belíssima o amor, a paixão, a relação entre dois apaixonados. 
Que inspira o leitor a pensar no perdão, nos arrependimentos de uma vida, na família e sobretudo… na expiação.
O livro acabou também por me mostrar o poder que uma imaginação pode ter. 

É uma obra intensa, do princípio ao fim e à qual é impossível ficar indiferente. Seja ao enredo, seja aos personagens, seja às circunstâncias em que a história se apresenta. De qualquer forma, Ian McEwan conseguiu emocionar-me em todos os níveis possíveis e dificilmente poderei descartar todas as mensagens que ele me passou, tudo o que ele me fez sentir através dos seus personagens e tudo aquilo em que ele me fez reflectir. 
Uma história tanto bela quanto triste. Uma história que me tocou o coração e que aqui vai ficar por muito, muito tempo.    



  


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