Por Favor, Não Matem a Cotovia

Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX.



ISBN: 9789722906838 – Difel / 2004



Por Favor, Não Matem a Cotovia é um clássico da autora Harper Lee, conhecida exactamente por esta sua obra, a qual foi congratulada com o Prémio Pullitzer no ano de 1961. Esta obra, à partida não parece ter nada que se destaque de outras milhares obras literárias, a não ser talvez o título algo invulgar e só por si, muito cativante por ser diferente. 
Contudo, esta obra é considerada por muitos um dos melhores romances do século XX e a obra acabou mais tarde por figurar na (re)conhecida lista dos 1001 livros para ler antes de morrer. Para quem não sabe o que isto é, saiba que a editora Quintessence Editions é a responsável pela compilação desta famosa lista. A colecção já conta com 13 séries de 1001 coisas que valem a pena ler/ouvir/ver, etc. antes de morrer e o sucesso destas séries é estrondoso, como podemos perceber pelos inúmeros seguidores que impõe a si mesmos estas metas e pretendem cumprir estas listas com rigor. (Vejam mais informações aqui.
Eu, considero, estou dentro dessa multidão. Não que conte ler a lista dos 1001 livros (afinal há tantos livros que eu não concordo que ali estejam e outros que deveriam estar), mas pretendo ler pelo menos alguns e afinal, tenho a vida pela frente e mais do que tempo para dedicar a obras que figurem nesta lista.
Este, é um deles. E portanto as minhas expectativas para este livro eram bastante elevadas, considerando o estatuto que o livro parece ter, à escala mundial.

Esta é uma daquelas obras que no início parecem ser vulgaríssimas, mas à medida que vamos passando as páginas, percebemos que existe uma grande riqueza sobre a superfície. A história é-nos contada a partir da voz de Jean Louise (Scout) Finch, uma menina com oito anos. Ela vive em Maycomb, uma cidadezinha que pertence ao estado de Alabama e vive com o seu pai – advogado do condado chamado Atticus Finch – e também com o seu irmão mais velho – Jem Finch. O livro fala-nos sobretudo sobre as desigualdades raciais que existem naquela época nos Estados Unidos da América. Todos nós sabemos que os estados sulistas eram os mais preconceituosos (se é que posso utilizar esta palavra) no tem que ver com aspectos raciais e os negros que viviam nesses estados eram alvo de atitudes racistas muito extremas e não se pode dizer que vivessem livremente ou mesmo que vivessem uma vida justa e digna. A história concentra-se toda ela num caso de tribunal onde a acusação é contra Tom Robinson – um negro suspeito de violar uma branca. Atticus, advogado de defesa de Tom luta com unhas e dentes para que este caso seja julgado com justiça e que a verdade possa prevalecer acima de tudo. 

Contudo, as desigualdades sociais nesta altura eram mais que muitas e o facto de Atticus ser o advogado de um negro impedia que as pessoas da cidade vissem as coisas com clareza, especialmente no que toca aos seus dois filhos, Jem e Scout. Atticus (que acabou por ser ser enxovalhado pela posição que tomou de defesa de negros) que sempre tentou educar ambas as crianças de forma a que conseguissem perceber que não é pela cor de pele que se julgam as pessoas e que estas devem ser consideradas como iguais sem nenhum julgamento prévio, chega a temer que a ignorância de quem lhe chama “amiguinho de pretos” ofusque o pensamento claro que os filhos têm sobre estas questões. A vivência dos irmãos com a sociedade onde estão inseridos é muito importante para o carácter que eles irão desenvolver para a sua vida adulta e o caso em que o pai deles está a trabalhar também será um ponto de igual importância para os definir como os indivíduos que eles irão ser, quando se tornarem adultos e é um acontecimento que os marcará para o resto das suas vidas. 
No entanto, enquanto não crescem e podem aproveitar a juventude, vão continuando a tentar encetar contacto com Boo Radley, que há anos que não sai do conforto da conhecida Casa Radley, que permanece em mistério desde há muito e faz as delícias às crianças. Em todas as cidades, tem de existir uma história escandalosa e rebuscada e esta com certeza que preenche todos esses requisitos.

Confesso que simplesmente adorei este livro. Os primeiros três/quatro capítulos não me pareceram nada de especial, mas rapidamente dei por mim a não conseguir largar o livro. A escrita de Harper Lee acabou por me apanhar desprevenida pela sua fluidez e simplicidade e envolveu-me de tal forma que acabei por não descansar até saber que tinha chegado à última letra da última página. 
De facto, o enredo é muito simples e a escrita é francamente cativante e envolvente e estas características são muito importantes para uma leitura de sucesso. O segundo aspecto positivo é que esta obra fala sobre uma época da História dos Estados Unidos da América que exerce um grande fascínio sobre mim e portanto mais facilmente me consegui envolver na leitura.

É um livro que retrata de uma forma muito transparente as injustiças sociais e o ambiente de desigualdade racial que se vivia nesta época da Depressão e que dá extrema importância à diferenciação das classes sociais, igualmente. 
Não só é de uma riqueza tal em termos culturais, pois temos a oportunidade de perceber um pouco a mentalidade sulista daqueles anos mas a forma como os americanos lidavam com as dificuldades diárias de tempos conturbados. Podemos assistir também em primeiro mão à evolução de crescimento de duas crianças, que no início só se preocupam em brincar, mas vão lentamente apercebendo-se do mundo e das realidades que os rodeiam e vão perceber que nem tudo se sucede como nós esperamos que seja. O mundo passa de um conto de fadas para aquela que é a crua realidade. 

É uma leitura que emociona, mas ao mesmo tempo que nos abre os olhos. É uma leitura que nos faz sofrer mas também nos consciencializa para as injustiças que grassam pelo mundo inteiro. É uma leitura que nos mostra a fria verdade das coisas mas que ultimamente, nos enche de esperança para que venham tempos melhores. É uma leitura que nos mostra que o ser humano tanto tem de bom quanto tem de mau. É uma leitura que nos mostra crueldade entre amigos, conhecidos mas que nos mostra o respeito e o bom senso e que nos faz acreditar que os seres humanos podem de facto, encontrar dentro de si espaço para melhorar a cada novo dia que vive. 

“E se somos todos iguais, porque é que se esforçam tanto para se odiarem mutuamente?”
in Por Favor, Não Matem a Cotovia


Água aos Elefantes

Foi com muito agrado que descobri esta obra na minha biblioteca local e que o trouxe para ser meu companheiro por uns tempos. Devido à falência da editora em questão, este livro é muito difícil de encontrar, pelo que é com muita pena que não vejo outra editora a pegar nesta obra que merecia ser reeditada. 
Já tinha ouvido falar muitas vezes sobre este livro, especialmente quando os anúncios da sua adaptação cinematográfica começaram a aparecer muito por aí. Depois de ter visto o trailer da mesma, decidi que tinha de ler o livro antes de ver o filme. (Parte dos meus rituais dos quais não abdico). Assim sendo, o entusiasmo não se conseguia conter e com uma premissa tão interessante quanto esta, Água aos Elefantes, era uma obra que parecia prometer “mundos e fundos”.

O romance de estreia de Sara Gruen conta-nos a história de Jacob Jankowski, um senhor que conta já com a honrosa idade de 93 anos. Jacob, nos anos em que a Grande Depressão assolou os Estados Unidos da América de uma maneira devastadora, tinha tudo o que podia pedir. Estava a estudar em Cornell, a tirar Medicina Veterinária e pouco faltava para ir trabalhar lado a lado na clínica do seu pai. 
Tudo isto muda quando os pais de Jacob têm um acidente e o rapaz descobre que o seu pai estava completamente falido. Assim, sem oportunidade de continuar os seus estudos, devido à falta de rendimentos e herança, Jacob foge, até que dá por si, a entrar num comboio. 
Este não é um comboio qualquer. É um comboio que faz parte de um circo chamado Benzini Brothers: O Maior Espectáculo da Terra
O jovem polaco por acaso da sorte, consegue ficar com um emprego como veterinário do circo e entra assim num mundo circense que lhe é completamente desconhecido e estranho. 

E é neste circo que Jacob irá conhecer o amor da sua vida. Uma mulher que tanto tem de bela como corajosa e talentosa. Ela chama-se Marlena e é a responsável pelo número dos cavalos, com os quais tem uma ligação espantosa e quase incompreensível. Mas Marlena é virtualmente inatingível, pois ela é casada com o chefe de Jacob, August.
Poderão eles ser felizes e viver uma história de amor? Ou estará o amor de Jacob condenado a nem sequer florir? 

Este livro surpreendeu-me pela positiva. Fiquei francamente admirada e apesar de ter iniciado a leitura do livro muito calmamente, depressa esta se tornou uma leitura voraz. As personagens e o próprio enredo absorveram-me de uma maneira incrível. O ambiente da narrativa, igualmente. 
Nunca tinha lido literatura que se debruçasse sobre o mundo circense, nem sobre o período da Grande Depressão, pelo que foi uma experiência única (até agora) que se revelou uma deliciosa surpresa. 
Não esperava realmente gostar tanto deste livro. A escrita de Sara Gruen envolveu-me a todo o momento. 

É também de referir que este livro tem uma particularidade interessante: no final de cada capítulo, ou a cada dois capítulos, existe fotografias pertencentes a museus, que retratam o mundo circense dessa época, pelo que é fantástico acompanhar a narrativa com ajudas visuais tão brilhantes quanto estas. 
É de fazer notar, igualmente, a pesquisa que a autora fez para completar este seu romance. Achei fantástica a maneira como ela abordou e coordenou um tema alegre – circo – com um ambiente desesperante – a crise económica que se viveu nesses tempos.
O livro tem momentos alegres, mas também tem descrições algo chocantes que permitem o leitor saborear uma realidade muito intensa, no que toca ao ambiente que se vivia nos EUA na altura da crise que assolou o mundo, mas em particular, esta nação. 
A natureza humana que a autora aqui nos apresenta tanto é calorosa como cruel, mas acima de tudo, a realidade é bem-vinda, ainda que por vezes a mesma seja triste. 

O único ponto menos positivo que aponto é que a autora não desenvolveu tudo o que eu queria que ela desenvolvesse. Acho que ficou uma ou outra ponta solta e gostaria que tal não tivesse acontecido. 

No entanto, foi uma obra que me marcou. Uma boa aposta!