O Terror, vol.2

Na primavera de 1845, Sir John Franklin liderou uma expedição de dois navios e 130 homens numa viagem arrojada para o desconhecido Ártico. O seu objetivo: encontrar a lendária Passagem do Noroeste que, supostamente, ligara os oceanos Atlântico e Pacífico. Mas agora Franklin está morto e os dois navios estão fatalmente presos nas garras do gelo. As rações e o carvão escasseiam e os homens, mal preparados, lutam para sobreviver ao frio letal. À beira do desastre e a braços com loucura, motins e canibalismo, o capitão Crozier terá de tomar medidas drásticas para sobreviver. Mas ele sabe que o seu verdadeiro inimigo é bem mais aterrorizador. Existe algo à espreita nas trevas glaciais: um predador oculto que captura marinheiros e abandona os seus corpos na vastidão de gelo… O Terror é simultaneamente um romance histórico rigorosamente pesquisado e uma homenagem ao melhor que a literatura de horror ofereceu até hoje. Segundo Stephen King: “Um romance intenso, absorvente e arrepiante como só Dan Simmons podia escrever.”

ISBN: 9789896373573 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2011 – 388 páginas

O Regresso do Rei - Senhor dos Anéis, Vol.3

Para quem ainda não leu a primeira metade deste livro, O Terror vol.1, desaconselho a leitura desta opinião. Ler por própria conta e risco. 

Os navios HMS Erebus e HMS Terror encontram-se encalhados nas calotas polares há mais de dois meses e as tripulações estão a enfraquecer a olhos vistos, por falta de recursos e devido ao escorbuto, que a cada dia que passa se torna uma ameaça maior. Sir John Franklin, que comandava a expedição ao Árctico, morreu e ele não é o único homem desta tripulação a encontrar um fim cruel. Quem toma o controlo das duas tripulações é o Comandante Francis Crozier que vê a sua vida complicada ao ter que tomar decisões difíceis, de vida ou de morte. Quando o comandante decide abandonar os navios e tentar a sua sorte, indo ao encontro de socorro noutras coordenadas geográficas, é a  lutar pela sobrevivência e a fugir de um monstro que os persegue de perto, que estes homens rapidamente começam a dispersar as suas lealdades. Onde antes os homens se juntavam e lutavam pelo bem de todos em união, agora é cada um por si e a sobrevivência de um indivíduo é mais importante do que a sobrevivência do grupo. Com a comida a escassear, os próprios homens começam a olhar para a carne dos seus colegas tripulantes com desejo, para saciar a sua fome. A tripulação que vai sobrevivendo ameaça dividir-se a todo o momento e o inimigo pode ser qualquer pessoa, qualquer coisa.

Sendo que já estava estipulada que a leitura deste segundo volume do Terror seria feita logo de seguida a acabar a primeira parte, comecei com algumas expectativas esta última parte da aventura árctica. Tinha acabado a parte anterior com alguma insatisfação, visto que o autor não deu nenhuma resposta às minhas perguntas. As páginas recheadas de descrição têm o seu mérito, mas eu queria desesperadamente que esta última metade procurasse explorar melhor o ambiente em que as tripulações tiveram que, forçadamente, viver em condições cruéis (no mínimo). Já tinha referido na outra opinião que este livro é um relato de sobrevivência. Não se espera romantismo no relato, mas sim imagens nuas, cruas e frias da realidade em que esta tripulação de mais de uma centena de homens estava inserida. O ambiente desta obra é todo ele, frio e inóspito, para instilar desconforto no leitor. Como se o próprio leitor da obra estivesse encerrado no gelo há meses, com a comida a escassear e a ver o inimigo a cada passo que dá. Todos os passos são incertos. À medida que os homens vão avançando, são muitas as decisões (todas elas de vida ou de morte) que têm que tomar. Sem nunca terem cem por cento de certezas se estão no rumo certo. O que eles procuram é salvar-se e para isso, têm de dar aquilo que têm e também o que não têm. As doenças grassam e os homens estão fracos. Alguns são deixados para trás, aqueles que mal conseguem andar são carregados. As chances de sobrevivência são muito poucas, especialmente quando o ser-humano é presa de algo que persegue os homens dia e noite.
As lealdades são mutáveis como o vento. E aquele que consideramos amigo, vira o pior inimigo que nos pode devorar em segundos. As alianças quebram como o gelo debaixo dos pés destes homens cansados. O sol, que começa a aparecer aos poucos e poucos, não chega para aquecer os ossos. É um local esquecido por todos.

À semelhança da metade anterior, o livro está recheado de descrições ricas do cenário em que os homens se encontram e Dan Simmons prima pela sua dedicação em descrever todos os pormenores desta jornada de sobrevivência. O facto de escrever sobre o ponto de vista de variados personagens é uma vantagem, sendo que nos dá uma visão mais ampla de todos os personagens que são centrais à história. É sempre conhecer dois lados de uma questão e aqui o leitor tem uma variedade de opiniões, pensamentos e sentimentos. Também à semelhança da metade anterior, há um núcleo de personagens que é importante para esta jornada. Crozier, Dr.Goosdsir e Irving seriam as escolhas óbvias para mim. Coincidência ou não, foram desde início as minhas personagens favoritas. Para mim, foram a alma deste livro. São também, para mim, os representantes da “bondade” do ser-humano. Estes três personagens tentaram (à sua maneira única) representar aquilo que de bom a natureza humana tem. E certamente deixaram a sua marca na obra, com momentos muito intensos.
No extremo oposto, a representar tudo aquilo que a natureza tem de mais macabro, está o ajudante de calafate Hickey. Apesar de ser esperado que o leitor sinta ódio por esta personagem, tenho de dizer que além do óbvio nojo (sim sim, foi nojo puro) que tive por ele, também me fascinou de uma forma negra. Ele representa tudo aquilo em que o ser-humano se pode tornar em momentos de extrema pressão. Fascinou-me por me relembrar que todos poderemos ter dentro de nós estes mesmos instintos, pois afinal também somos animais. Racionais e dotados de pensamento lógico, mas animais no núcleo do nosso ser. Fez-me reflectir sobre se colocada na mesma posição, como iria eu reagir? Acho que este personagem é aquele que mais inspira à reflexão da nossa natureza humana.  Verdadeira reflexão. Não basta apenas ler as passagens em que este personagem entra e dizer/pensar: “que nojo, devias morrer. Nunca irei ser como tu.” Por esses motivos, foi – ao lado de Crozier, Irving e Goodsir – a personagem que mais marcas me deixou.

Este último volume, que acaba por dar aos seus leitores uma visão completa deste cenário, é ligeiramente melhor que o primeiro. Não só por ter mais nível de acção, mas também por ter as respostas desejadas ao qual o primeiro volume não conseguiu responder. Se antes pensávamos que havia demasiadas pontas soltas e demasiado mistério sem maneira de perceber onde acabam as perguntas e começam as respostas, agora vemos o puzzle a ser resolvido página a página. Foi uma leitura mais frutífera nesse sentido e também porque é um livro que traz à luz as nossas vulnerabilidades como ser-humano. A dimensão humana – com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos – está sempre presente neste volume e de uma forma bem mais óbvia do que no primeiro. É uma verdadeira luta pela sobrevivência do mais apto. Esta metade agarra de forma mais notória, a atenção dos leitores e por isso tenho que dizer que em termos gerais, prefiro este segundo ao primeiro. Parece ter existido um amadurecimento mais rápido da história e a narrativa fluiu de forma mais interessante e dinâmica.

Não posso deixar de recomendar esta obra, na sua totalidade, aos leitores que gostam de um romance salpicado de emoções fortes, com a natureza humana no seu melhor – e no seu pior.

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O Terror, vol.1

Na primavera de 1845, Sir John Franklin comanda uma expedição de dois navios e 130 homens numa viagem arrojada para o distante e desconhecido Árctico. O seu objectivo: encontrar e mapear a lendária Passagem do Noroeste que, supostamente, ligará os oceanos Atlântico e Pacífico.
Dois anos depois, a expedição, que começou sob um espírito de optimismo e confiança, enfrenta o desastre. Franklin está morto. Os dois navios (o Erebus e o Terror) estão fatalmente presos nas garras do gelo. As rações e o carvão escasseiam e os homens, mal preparados, lutam diariamente para sobreviver ao frio letal. Mas o seu verdadeiro inimigo é bem mais aterrorizador. Existe algo à espreita nas trevas glaciais: um predador oculto que captura marinheiros e abandona os seus corpos na vastidão de gelo…

ISBN: 9789896373290 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2011 – 316 páginas

O Hobbit

Estamos em 1845: Dois navios e 130 marinheiros, divididos entre duas tripulações partem de Londres para uma expedição no Árctico. Sir John Franklin comanda esta expedição e os navios HMS Erebus e o HMS Terror; sendo que Francis Crozier, é o comandante deste segundo navio. As ordens para esta expedição são claras – estes dois navios devem navegar até à Passagem do Noroeste até ao Canadá, descobrindo, mapeando, explorando o suposto Mar Aberto Polar. Consigo levam comida e recursos que permitem que os homens sobrevivam durante 3 anos em condições muito exigentes. Afinal, vão partir para uma das zonas mais inóspitas do planeta e vão enfrentar temperaturas negativas que chegam até aos -40 graus. A expedição começa de uma forma calma e os marinheiros estão entusiasmados com a experiência. Contudo, rapidamente se dão conta de que os dois navios encalharam no gelo e assim começa a sua hibernação num dos piores lugares do mundo. Sem nenhuma alternativa se não esperarem por um eventual degelo, os marinheiros preparam-se para (sobre)viver num inverno muito rigoroso. Mas também perigoso, pois após os navios ficarem presos nas camadas de gelo, as tripulações começam a ouvir barulhos estranhos e ficam sem saber com quem é que estão verdadeiramente a lidar: se com o gelo e as temperaturas negativas ou algo mais. A ficar sem recursos alimentícios e sem carvão para se aquecerem, os homens vêem-se aterrorizados a lutar pela sobrevivência num universo completamente horrorífico.

Como o título do livro indica, esta é a primeira metade da obra O Terror da autoria de Dan Simmons. E é o segundo livro deste autor que eu leio. O primeiro, com o título A Canção de Kali, não me tinha impressionado muito. Mas sabia que a escrita do autor seria fluída e desafiadora, por isso, as minhas expectativas quanto a este Terror eram até elevadas. E como já estava à espera, gostei desta experiência. Como disse, o tom de escrita do autor é muito desafiador no sentido em que mantém o leitor preso, cativo da sua narrativa. Sendo que ele escreve dentro do género do horror e do fantástico, estava à espera de uma narrativa recheada de mistério e de emoções fortes. Bem como acontecimentos sinistros. Encontrei isso mesmo. Após ter lido as primeiras páginas decidi que devia ir pesquisar sobre o acontecimento verídico no qual o autor se baseou para escrever esta história. Fiquei fascinada com os resultados da minha pesquisa. E muito, muito curiosa, porque já me tinha apercebido logo às primeiras páginas, que o autor tinha introduzido um elemento de horror de uma forma muito subtil mas muito inteligente. Depois da pesquisa que efectuei, confesso que voltei à minha leitura com novos olhos. E com vontade de olhar sobre o ombro.

Imaginem a desolação deste cenário – para onde olhem, só vêem gelo e quietude. Só ouvem ruídos que vos são estranhos. Estão presos, sem maneira de fugirem deste cenário inóspito e gelado. À noite, os ruídos que ouvem são diferentes. São assustadores, intrusivos. Um arrepio sobe-vos pela espinha, o medo faz-vos suar apesar de a temperatura ser de 40 graus negativos. Os vossos colegas marinheiros começam a ser mortos das maneiras mais horroríficas possíveis e é impossível adormecer à noite sem pensar na possibilidade de serem vocês os próximos a ser devorados pelo monstro que vos persegue  e que está a controlar todos os vossos movimentos. A juntar a este sentimento de inquietação, o escorbuto começa a enfraquecer toda a população destes navios. Metade dos vossos recursos alimentícios está estragado e já não tem carvão para se aquecer. O terror instala-se e a vontade de sobreviver é a única que vos mantém conscientes e preparados para lutar.
Dan Simmons consegue, com a sua escrita, transportar-nos para esse cenário de forma convincente. Com muito pouco esforço, devo dizer. O seu relato é tão intenso e tão descritivo que é impossível que o leitor não crie na sua mente, uma imagem muito forte deste palco de acção. A cada linha que ele escreve, é notável a pesquisa e a forma como o autor se informou sobre este acontecimento. E com a sua pesquisa, acaba por manipular esse mesmo acontecimento de uma forma muito inteligente e eficiente, de forma a que o leitor comece a pensar que foi assim mesmo que as coisas se sucederam.

Para misturar ficção e realidade é preciso ter alguma mestria, na minha opinião. Dan Simmons fá-lo com tanta facilidade que, enquanto estou a ler,  dou por mim a pensar que este relato fictício poderia ser uma realidade bastante provável. É maravilhoso pensar que o autor consegue esbater de tal forma as fronteiras entre realidade e ficção que eu própria dou por mim a confundir os mundos e as dimensões.
Esta expedição, foi na realidade, um testemunho de sobrevivência. E o que o autor aqui relata é isso igualmente, mas de uma forma mais assustadora e cruel. Porque a juntar à luta pela sobrevivência no gelo, temos algo monstruoso que persegue estas tripulações. Algo para o qual eles não têm defesa alguma. E isso entra numa dimensão de sobrevivência completamente diferente. Este é um cenário onde o ser-humano é que é a presa, não o predador. E o mais apto sobrevive, como Darwin nos relembra a cada página que passa.

Embora a falta de respostas seja algo aborrecido (queria mais informações sobre o que realmente se está ali a passar e sinto que o autor negligenciou a verdadeira ameaça que estes homens enfrentam) sei que ainda só li a primeira metade do livro, e portanto não posso julgar o livro na sua totalidade. Contudo, este primeiro volume convida à leitura imediata do segundo e último volume, porque como disse, este é um relato de sobrevivência em condições extremas e sem ler o segundo volume, é fácil perder o fio à meada. Convidaria até à leitura seguida dos dois volumes, pois daí sairá uma leitura mais frutífera. Acabei esta leitura com vontade de saber qual será o destino destes homens. E espero que o segundo (livro que já me encontro a ler a toda a velocidade) traga respostas às tantas perguntas que tenho sobre o que realmente se passa neste mundo gelado.

Para aqueles que gostam de uma mistura entre o horror, mistério e uma pitada de fantasia, creio que esta leitura poderá ser uma boa aposta. Eu sinceramente, fiquei surpreendida com a primeira metade. E tenho quase a certeza de que assim será com o segundo.

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Para mais opiniões do autor, ver aqui.

A Canção de Kali

Opinião:

Apesar de ter mais 2 livros deste autor por ler, decidi que era com esta “A Canção de Kali” que queria fazer a minha estreia, visto que é um livro bastante pequeno (tem apenas 235 páginas). 
Assim, parti com algumas expectativas para a leitura deste livro. Este livro é considerado por muitos, um livro fantástico e aterrador. Com este tipo de elogio, era de facto impossível não gerar algum nível de expectativas. 

A Canção de Kali relata-nos a missiva de Robert Luckzak, em busca de um manuscrito muito aclamado. Este manuscrito foi escrito por um poeta indiano chamado Das, que desapareceu misteriosamente há alguns anos atrás. Mas, existem várias pessoas que podem afirmar de que este poeta não se encontra de forma alguma desaparecido ou mesmo morto, mas sim vivo. 
Robert é então enviado a Calcutá com o objectivo de adquirir os direitos deste manuscrito e entrevistar o poeta indiano. Consigo leva a sua mulher Amrita – para servir de intérprete – e também a sua filha de sete meses, Victoria. 
No entanto, nem tudo se revela fácil e Robert vê-se como um peão num jogo que não consegue compreender. Isto porque, este manuscrito, intitulado como A Canção de Kali revela-se muito menos inocente do que uma suposta colectânea de poemas.

Como estreia, este livro revelou-se aquém das expectativas. Se pudesse dar um adjectivo a este livro, o escolhido seria morno. 
É um livro que se lê rapidamente, muito devido ao seu tamanho, mas também devido à escrita do autor, que é agradável e fluída  As suas descrições levam o leitor para as ruas populosas de Calcutá, onde podemos mesmo vibrar com a vida que aí se desenrola. Foi o que mais gostei no livro. O autor conseguiu levar-me a Calcutá enquanto lia a sua obra. 

No entanto, não foi um livro que me fascinasse de outra maneira. A primeira coisa que esperava deste livro é que fosse mais aterrador, visto pertencer ao género literário de horror. Contrariamente às minhas esperanças, não achei que este livro fizesse jus à divisão de género onde ele se encontra. Não achei o livro de nenhuma forma assustador e embora possam ter existido algumas descrições macabras, em nenhum momento me senti assustada. Certamente que já livros que me fizessem olhar sobre o ombro e inclusive que fizessem arrepiar-me. Foi com alguma desilusão que neste aspecto, achei o livro banal.
Depois, achei que o enredo foi pouco desenvolvido. Acabei o livro com mais dúvidas e questões do que respostas e esclarecimentos. Nem tudo foi explicado de maneira satisfatória e o mistério que pairou no início do livro foi perdendo o brilho até ao final.

Quanto aos personagens, houve apenas um que me ficou na memória, porque foi o único personagem que me suscitou interesse verdadeiro e esse foi o Sanjay. Tenho pena que o autor não tenha revelado mais sobre ele. Ficaram muitas pontas soltas.
Quanto aos restantes, especialmente o protagonista, não senti empatia por ele. Não achei que Robert fizesse jus à situação que se vivia em Calcutá. No início, ele pareceu-me uma pessoa determinada. Com o decorrer da acção, deparei-me com uma pessoa que parecia ter receio da própria sombra. Achei as tentativas de humor dele muito fracas e sem consenso nenhum e passou a acção a arrepender-se de cada uma das acções que tomava. Já a Amrita, também foi uma personagem muito pouco influente e das quais esperava muito melhor. Teve alguns diálogos que não fizeram sentido, nem foram explicados pelo autor, pelo que me deu a sensação de que ficaram a destoar da restante narrativa e dos restantes acontecimentos.

Em suma, foi um livro que li com uma curiosidade saudável, mas que não me satisfez plenamente. Reservo a minha esperança para os dois volumes do livro “O Terror”, que tenho em lista de espera para ler e que parecem ser de facto, muito mais promissores.
Recomendo a leitura do livro, mas ressalvo que poderá não corresponder totalmente às vossas expectativas.