Os Diários Secretos

O verão está a chegar ao fim e a escritora Erica Falk regressa ao trabalho depois de gozar a licença de maternidade. Agora cabe ao marido, o inspetor Patrik Hedstr¿m, tratar da pequena Maja. Mas o crime não dá tréguas, nem sequer na tranquila cidade de Fjällbacka e, quando dois adolescentes descobrem o cadáver de Erik Frankel, Patrik terá de conciliar os cuidados à filha com a investigação do homicídio deste historiador especializado na Segunda Guerra Mundial. Recentemente, Erica fez uma surpreendente descoberta: encontrou os diários da mãe, com quem teve um relacionamento difícil, junto a uma antiga medalha nazi. Mas o mais inquietante é que, pouco antes da morte do historiador, Erica tinha ido a casa dele para obter informações sobre a medalha. Será que a sua visita desencadeou os acontecimentos que levaram à sua morte? E estará Erica preparada para conhecer os segredos dos diários da mãe? Camilla Läckberg combina com mestria uma história contemporânea com a vida de uma jovem na Suécia dos anos 1940. Com recurso a numerosos flashbacks, a autora leva-nos a descobrir o obscuro passado da família de Erica Falk.

ISBN: 9789722050470 – D.Quixote (Leya) / 2012 – 518 páginas


Os Diários Secretos é o quinto livro da série policial que tem lugar na pequena cidade costeira de Fjällbacka, na Suécia.  Dos cinco livros que já li escritos por esta autora posso dizer que ainda nenhum me desiludiu de nenhuma forma, pelo que à quinta crítica começa a ser já um pouco difícil arranjar novos adjectivos para descrever estas obras de mistérios que são tão viciantes.
Camilla Läckberg constrói histórias muito bem organizadas, ponderadas e estruturadas. Não deixa nada ao acaso, nos puzzles que desenvolve para deleite dos seus leitores. A primeira coisa que gostos nestes livros é mesmo a sua organização em termos de capítulos, que permite ao leitor ter diversos pontos de vistas e acompanhar diversos personagens ao longo do livro. Por outro lado, a escrita da autora é a outra grande atracção desta série. E por escrita não digo apenas a forma como a autora conjuga as palavras para construir frases, refiro-me antes a todo o seu universo ficcional. A forma como explora as suas personagens, como entrelaça as vidas pessoais com as vidas profissionais e com a vertente de mistério do livro. Tudo se encaixa de forma perfeita nestas obras e é por isso que estes livros ainda me continuam a chamar a atenção. Pequenos nadas que se vão juntando ao longo das páginas para nos dar uma visão geral da paisagem não apenas dos crimes que ocorrem ao longo das narrativas, mas igualmente do puzzle complexo que estas personagens são, com as suas personalidades distintas e motivações secretas. E a forma de narrar: essa é simplesmente viciante.
Gostei particularmente deste volume por se concentrar em dois aspectos que me interessam muito. Um que sempre me interessou, o evento histórico da Segunda Guerra Mundial e outro que me interessava no universo desta série e era algo que desejava ver explorado – a história da mãe de Erica.
Tanto um como o outro foram deliciosamente bem desenvolvidos. Primeiro que tudo, nunca tinha lido um livro que falasse sobre a perspectiva Sueca e Norueguesa ao longo do período da 2ª Guerra Mundial e foi para mim muito interessante ler sobre este conflito de uma perspectiva completamente diferente, fazendo notar os efeitos que a Guerra teve na Europa do Norte. Tendemos a concentrarmo-nos nos países que mais destaque tiveram e acabamos por achar que os outros não sofreram com este período.
E depois, no universo mais marcadamente ficcional adorei conhecer melhor a mulher que trouxe Erica ao mundo. Esta sempre tinha sido envolta num véu de mistério desde o princípio da série e foi muito bom conseguir desvendar a história que moldou a mulher que viria a ser mãe de Erica.
Sobre o caso policial no qual este livro se debruçou tenho que dizer que embora fosse sem dúvida estimulante, não se revelou ser tão surpreendente como eu tinha achado logo às primeiras páginas. Acabei por conseguir intuir certas nuances ao longo da narrativa que me permitiram acertar várias coisas, especialmente no que concerne às páginas finais. Ainda assim, nunca perdi o estímulo para avançar nas páginas e continuei grudada à escrita.
O que posso dizer é que este livro, à semelhança dos anteriores, conseguiu dar-me momentos de grande entretenimento e foi um livro que trouxe vários desenvolvimentos aos personagens, já meus conhecidos, sobre os quais adorei ler. Esta série está rapidamente a transformar-se como uma das minhas preferidas.

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Ave de Mau Agoiro

Com três títulos já editados em Portugal – A Princesa de Gelo, Gritos do Passado e Teia de Cinzas -Ave de Mau Agoiro confirma Camilla Lackberg como uma das mais talentosas autoras de romances policiais da atualidade. Com mais de oito milhões de exemplares vendidos no mundo, a autora transporta-nos uma vez mais para um universo onde a harmonia familiar da escritora Erica Falk e do inspetor Patrick Hedström contrasta com a violência dos crimes que este tem de resolver.

ISBN: 9789722048095 – D. Quixote (Leya) / 2011 – 408 páginas


Este é o já o quarto livro da série de policiais pela mão da escritora sueca Camilla Läckberg que leio e apesar de já ter passadobem mais de um ano desde que li o terceiro livro (Teia de Cinzas) não sinto que a série tenha perdido o encanto, muito pelo contrário. De facto, apesar de estar com receio de não me lembrar de algumas coisas, mal comecei a ler, dei por mim a relembrar-me de coisas que tinha lido no volume anterior. Desta vez, Patrik Hedström vê-se confrontado com o homicídio de uma mulher que apesar de ser abstémia, é encontrada dentro do seu próprio carro com um nível absurdo de álcool no sangue. A juntar a este homicídio estranho e aparentemente sem qualquer justificação, a comunidade local acaba por receber um reality show que promete trazer mais vida à pequena cidade e aumentar o  fluxo de turistas na pequena cidade esquecida a um canto da Suécia. Os jovens que participam neste programa têm todos um ponto fraco, já para não falar das auto-estimas debilitadas e, as emoções e conflitos começam a estalar à medida que o programa se desenrola. O que ninguém esperava era que uma das concorrentes aparecesse morta, o seu corpo deixado ao abandono num caixote do livro, na manhã após uma festa do programa.

Para mim, esta autora sabe equilibrar bem todas as vertentes da sua narrativa. Esta tem um pouco de tudo: romance, dramas familiares/ pessoais e o caso policial que por vezes pode ter mais ramificações do que à partida parece, como é o caso neste quarto volume. Camilla cria um enredo que se vai tornando mais complexo à medida que o leitor avança nas páginas e as voltas e reviravoltas são muitas, ao ponto de muitas vezes o leitor ser surpreendido com a identidade do culpado. Embora a autora tenha realmente um dom para me confundir no que toca aos suspeitos, neste livro em particular o meu palpite revelou-se certíssimo e confesso que as minhas suspeitas estavam lá desde o início, pelo que o factor surpresa nesse prisma não esteve muito presente.

Ainda assim, deu-me um gosto especial ler este policial. A escrita da autora é muito boa e é impossível não nos deixarmos levar pelos enlevos da narrativa. Na verdade, este livro pede para ser devorado sem qualquer demora. Eu demorei pouco mais de um dia para acabar este livro exactamente por isso, pela escrita viciante que esta autora revela ter, tendo em conta os livros que já publicou e que eu já li. Mal peguei no livro fui imediatamente sugada para esta história e queria sempre ler apenas mais um capítulo para ver como o enredo se iria desenrolar.
Essa é das maiores qualidades que qualquer escritor pode ter. A capacidade que tem para cativar o seu leitor e de o envolver no seu mundo ficcional – esta capacidade mostra-nos a força da história e da escrita.

O que quero com isto dizer é que não é preciso ser uma obra-prima para ser uma leitura que nos preenche de sentimentos ou que nos faz devorar centenas de páginas em horas. Se a escrita e a história forem realmente boas, forem trabalhadas com alguma coerência, o leitor não se consegue dissociar tão facilmente daquele livro. Foi o que me aconteceu com este volume, que me oferecer entretenimento ao mais alto nível. Tinha, na verdade, muitas saudades de um bom policial. E este satisfez-me muito. E ainda me deixou com água na boca para ler o próximo da série, que já se encontra na estante à espera da sua vez.

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Rebeldes

Mestre das paixões, neste romance Sándor Márai dedica-se não aos triângulos amorosos mas a outras questões igualmente susceptíveis de despertar emoções fortes: o que une um grupo de jovens revoltados contra tudo e a tudo dispostos.
E arrisca-se a levar o leitor ao centro de um enredo de erros e fúrias, cumplicidades e traições, sofrimento e cobardia -de inconfessáveis atracções e de ambíguas repulsas. Porque trata das vicissitudes e aventuras de um grupo de rapazes, ou melhor, um bando, como se definem a si próprios, no final da Primavera de 1918, numa pequena cidade da Hungria distante da frente e onde a vida, aparentemente calma, é profundamente abalada pela guerra.
Entregues a si próprios enquanto os pais combatem na frente, estes rapazes decidem libertar os demónios da sua revolta impelidos por um ódio ardente contra o mundo, pela sua imaginação e pela sua arrogância -e também por um erotismo, tão mais aceso quanto mais implícito -, deixando a guerra para o mundo dos adultos e inventando jogos demasiado perigosos. Um obscuro actor que se torna o seu mentor oculto, envolvendo-os nas suas perversas tramóias, acabará conduzindo-os a um trágico e inevitável epílogo.

ISBN: 9789722036566 – D. Quixote (Leya) / 2008 – 240 páginas

O Hobbit

Rebeldes é o terceiro livro do autor Sándor Márai que leio. Este autor revelou-se logo como sendo um dos meus favoritos, pela sua obra intitulada As Velas Ardem Até Ao Fim, que me marcou de uma forma inexplicável. Como já há algum tempo não pegava numa obra do autor, decidi matar saudades com este Rebeldes, que fala sobre um grupo de jovens que se encontram naquela idade entre o ser deixar de ser criança e passar a ser adulto, que é declaradamente uma fase de rebeldia. Neste livro, este grupo de jovens que se intitulam como o bando, rebela-se contra a vida que levam e contra a sociedade em que estão inseridos. Seja rebeldia contra os pais e o sistema imposto em casa, seja rebeldia na escola, seja na vida social que levam, os jovens caracterizam-se pelas suas atitudes irreverentes e apaixonadas.
A guerra que veio abalar o país onde vivem é também um factor que influencia estes jovens, que procuram novas emoções para a vida aborrecida que levavam até então. Antes indivíduos solitários, é a partir do momento em que se juntam que os problemas também se instalam. As emoções vão, lenta e subtilmente arrasando todas as ligações que outrora se criaram entre estes jovens rebeldes a pouco e pouco, até que o bando devagar se desfaz mas não sem as suas consequências.

Sendo esta uma obra da autoria do Sándor Márai, confesso que as minhas expectativas se encontravam bastante elevadas. Gostei bastante dos livros que já li dele e um deles marcou-me realmente muito, pelo que esperava desta obra algo parecido e ao mesmo nível. Reflectindo sobre a leitura, encontro-me dividida.
Não existe dúvida nenhuma de que esta obra é uma delícia em termos de escrita – a escrita do autor é fabulosa e tem muito potencial para encantar os leitores (nem todos é certo). Ele tem uma maneira única de descrever os personagens e o enredo evolui sempre de uma maneira natural, recheada de considerações profundas a enlear a narrativa. Os acontecimentos estão encadeados de uma forma subtil e é por vezes difícil dar pela acção a avançar, pois estamos tão embrenhados na narrativa que nem nos apercebemos de que a história já avançou de forma considerável.
Este é um ponto neste autor que me continua a maravilhar de livro para livro.

Sándor também tem um conhecimento vasto sobre a natureza e psicologia humana. Não só ele consegue retratar muito bem os tons de cinzento que existem na nossa natureza como também ele dá o passo seguinte, que é o de dar a perceber ao leitor que o personagem reage de uma certa maneira porque tem uma motivação especial. Grande parte das vezes podemos apenas supor porque é que os personagens vão por um determinado caminho e não por outro, pois cada qual tem a sua muito única motivação pessoal. E esse é também um factor que distingue este autor.

Contudo, apesar de todos os factores positivos, não posso deixar de fazer comparações. E creio que o meu problema com este livro não foi não gostar da leitura (claramente este é um livro que se deve ler e é uma leitura que vale a pena) mas sim as expectativas que criei, devido à estreia que tive com o autor. Da maneira como adorei o primeiro livro que li dele, tudo o resto parece ficar na sombra de tal obra. Tenho perfeita noção que isto acaba por ser injusto para todas as obras que lerei de Sándor, mas é uma comparação que não posso deixar de fazer, é mais forte que eu.
De qualquer forma, não posso retirar valor a este livro e foi uma leitura que embora não me tenha maravilhado, deu para matar as muitas saudades que tinha dos livros do autor.

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Catch-22

Volvidos cinquenta anos sobre a data da sua primeira edição, Catch-22 persiste como uma das pedras angulares da literatura americana e um dos mais divertidos – e aclamados – romances de todos os tempos. Figura nas listas dos “melhores romances” da Time, da Newsweek, da Modern Library, da The New York Public Library, da American Library Association, do The Observer e do The Guardian.
Passado em Itália durante a II Guerra Mundial, conta a história do capitão Yossarian, comandante de bombardeiros, um herói incomparável e matreiro, que está furioso porque milhares de pessoas que não conhece de lado nenhum o querem matar. Mas o seu verdadeiro problema não é o inimigo – é o seu próprio exército, que está sempre a aumentar o número de missões de voo que os homens têm de cumprir para completarem a sua comissão de serviço. Porém, se tenta arranjar uma desculpa para ser dispensado das perigosas missões que lhe são atribuídas, Yossarian viola a Catch-22, o Artigo 22, uma norma burocrática hilariante mas ao mesmo tempo sinistra: um homem é dado como doido se continuar a participar voluntariamente em perigosos voos de combate, mas se apresentar um pedido formal de dispensa é declarado mentalmente são e, como tal, esta é-lhe negada.
Desde que Catch-22 foi publicado, em 1961, nenhum outro romance a ele se compara na intensidade e no fulgor com que caracteriza a brutal insanidade da guerra.

ISBN: 9789722046596 – D. Quixote (Leya) / 2011 – 541 páginas

O Hobbit

Este é um dos clássicos modernos que toda a gente já leu, quer ler ou dizem os entendidos, todos devemos ler pelo menos uma vez na vida. Uma obra fulcral para a literatura norte-americana, que versa sobre a Segunda Guerra Mundial e o mundo da burocracia da autoridade militar. Joseph Heller tornou-se largamente conhecido por ter escrito esta obra e confesso que não tinha grande curiosidade em ler tal obra, a não ser quando comecei a estudar literatura norte-americana.

Quando comecei a ler este livro, não o fiz esperando uma obra de grande calibre. Na verdade, não sabia o que esperar e por isso não criei nenhuma expectativa em especial.
Mas mal comecei a ler o livro, apercebi-me que este livro iria representar uma leitura de alguma dificuldade. É incrível como é que uma pessoa se consegue aperceber, logo às primeiras páginas, quando certo livro nos vai cativar ou não. A questão é que logo às primeiras páginas soube que não me ia apaixonar por este livro e assim foi. Podia apontar vários factores para que esta leitura não tenha corrido de forma perfeita, mas aquele que mais pesou para mim foi o de não ser a leitura certa no momento certo.
Nesta altura do ano, costumo dar preferência a outros livros tal como policiais ou romances mais leves que permitam que a minha mente se descontraia e não clássicos, que em regra são livros que necessitam de mais atenção e de mais disponibilidade emocional. A meu ver, este livro precisava de uma leitura mais disponível e paciente e não foi isso que aconteceu, pelo que a experiência que tive com esta obra revelou-se bem amarga.

De facto, achei a leitura morosa, a escrita de Joseph Heller aborreceu-me – não diria de morte, mas esteve lá perto – e infelizmente não consegui entrar no enredo nem liguei muito às personagens. Mas, o que me surpreende é a contrariedade dos meus sentimentos durante a leitura porque embora a escrita e a história em si me tenha aborrecido, também existiram momentos em que eu sabia reconhecer que o autor estava a criar uma situação hilariante e a descrever de forma cómica os acontecimentos mas de alguma forma, o riso não explodia. É como se a parte racional de mim soubesse que x situação deveria ter piada, mas a parte emocional não explodia de riso. É deveras frustrante pensar que um livro pode ter tão pouco efeito em nós.
Até este ponto, se tivesse que classificar a leitura, diria que era uma leitura difícil e portanto daria 2 estrelas. (até me custa dizer tal coisa). Contudo, o que pesou mais para a minha classificação geral foi não a escrita, nem o humor, nem os personagens ou enredo, mas sim o Artigo 22 propriamente dito. Na minha opinião pessoal foi essa temática que safou este livro do aborrecimento total.

Tenho que considerar que o autor, de uma forma quase banal, traz à luz uma parte importante da nação e cultura norte-americana – aquela que é a instituição militar e a burocracia que envolve todo este poder. Tenho a certeza que todos os países experienciam problemas similares com o nível de burocracia exagerada, mas de alguma forma, lendo este livro, poderíamos sentir-nos tentados a dizer que esse é um problema exclusivamente americano. O ridículo do nível excessivo que existe na burocracia do sistema militar americano é exposto pelo autor de forma caricata, mas incrivelmente eficaz. E por isso, não posso dizer que esta leitura tenha sido uma perda de tempo.

Pelo contrário, acredito que podemos retirar sempre alguma coisa de todos os livros que lemos e neste caso pude ver que a guerra e as instituições governamentais têm, no seu seio, muitas situações ridículas e caricatas que nem sempre passam despercebidas aos civis (não deveria caracterizar o autor como sendo civil pois ele fez parte deste sistema militar quando jovem, mas de qualquer maneira é através da sua obra que os civis podem estar a par deste tipo de ocorrências – adaptadas à ficção, claro).

Pássaros Feridos

Mortalidade





Mortalidade é uma comovente viagem ao mundo da doença que marca o século XX, o cancro, sem nunca perder a racionalidade que o define. Nesta inevitável relação com a morte, Hitchens revela o seu lado mais humano e, ao mesmo tempo, mantém os seus principais traços jornalísticos.




ISBN: 9789722051439 – D.Quixote (Leya) / 2013 – 102 páginas




Christopher Hitchens, conhecido autor e jornalista, relata neste seu livro de memórias, a sua batalha contra o cancro. Mas este não é o típico livro de memórias. É certamente mais que isso. É um livro que traz à luz reflexões sobre o que é estar naquele espaço de tempo que não é propriamente vida, mas que também não é morte. É aquele interlúdio em que ainda temos esperança de vencer a morte, mas sabemos que não estaremos vivos por muito tempo. Christopher Hitchens, ao contar a sua experiência contra o cancro do esófago fala-nos não só  de como é errado temer a morte, mas como é igualmente errado não lutar pela vida. Também nos fala sobre religião, numa altura em que seria esperado, quase, que este ateísta reconhecido, se virasse agora para a religião como forma de consolo e de abrigo. E acima de tudo, Christopher relata com uma honestidade brutal, que a morte anda de mãos dadas com a vida. 

Há livros que nos aparecem ao longo da vida e que tornam nossos companheiros para sempre. Não sabemos bem como é que eles se cruzam no nosso caminho, nem porquê, mas sabemos que de alguma forma, foram perfeitos para a altura em que entraram na nossa vida. Foi o que me aconteceu com este Mortalidade de Christopher Hitchens. Já tinha ouvido falar no autor, mas na verdade, não sabia que ele tinha lutado contra o cancro e quando este livro me veio parar às mãos, não poderia saber o quanto ele poderia vir a significar para mim. E acabei por ser surpreendida. Muito, aliás. 
Este é daqueles exemplos fantásticos que nos mostram que os livros não se medem pelas páginas que têm. E em pouco mais de 100 páginas este livro conseguiu abalar o meu mundo de forma indescritível. 
Se me pedirem para descrever este livro, não o vou conseguir fazer. Mas uma coisa é certa, é daqueles pequenos tesouros que são impossíveis esquecer. E que valem a pena reler. 

O conceito de morte é um que consegue ser real e intangível ao mesmo tempo. A resposta parece óbvia. Todos nós sabemos o que ela é, todos nós sabemos o que esta implica. Mas não conseguimos realmente compreendê-la a não ser que já tenhamos passado por isso. E enfim, se realmente passámos por esta experiência, não estaremos por cá para contar a outrem como é que ela é.  
Por isso mesmo, o conceito de morte e o estado mortal é algo que nos define a todos nós por natureza. Desde sempre que tentamos lutar contra o nosso estatuto mortal e desde sempre que tentamos tirar algum sentido da palavra morte. 
Até hoje, aquilo que conseguimos fazer foi estender o período de vida e evitar a morte o máximo possível. Mas, façamos o que fizermos, ao fim da estrada, quem nos cumprimenta é a Morte. Não há volta a dar, diga a ciência o que disser. 
E o mais assustador de tudo é que este é um processo que não podemos controlar. Pelo menos não completamente. Todos os dias lidamos com morte e não há de facto nenhum critério de selecção. 
Aqueles que ficam lidam com as suas consequências e com o tempo, vamos aprendendo a lidar com os efeitos secundários que ela nos traz.

Mas pior do que lidar com a morte… como é que podemos lidar com o período de tempo que está no meio? Aquele em que sabemos que o nosso corpo está prestes a desistir mas o intelecto não? Aquele em que lutamos por ficar cá, mas que sabemos lá no fundo que o tempo se está a esgotar?
Este interlúdio parece por vezes pior que a própria morte, ao ponto de desejarmos realmente a morte. 
É um interlúdio dolorosamente real. Os melhores amigos são os médicos, as enfermeiras e os hospitais. A dor torna-se o nosso companheiro de cama. E contudo, queremos lutar pela vida. Porque nos parece óbvio que não queremos deixar este mundo. Mas, o que é mais assustador? Ficar ou ir? Estar sem realmente estar? 

Sinceramente, não sei.  



A História do Amor

Leo Gursky tenta sobreviver mais algum tempo, batendo no radiador todas as noites para dar a saber ao seu vizinho de cima que ainda está vivo e fazendo recair sobre si as atenções ao balcão do Starbucks do bairro. Mas a vida nem sempre foi assim: há sessenta anos, na aldeia polaca onde nasceu, Leo apaixonou-se e escreveu um livro. E, embora não o saiba, esse livro também sobreviveu: atravessou oceanos e gerações, e mudou vidas. Alma tem catorze anos e foi assim baptizada em honra de uma personagem desse livro. Passa a vida a vigiar Bird, o seu irmão mais novo (que acredita poder ser o Messias) e a tomar notas num caderno intitulado Como Sobreviver na Selva – Volume III. Mas no dia em que uma misteriosa carta lhe chega pelo correio começa uma aventura para descobrir a sua homónima e salvar a família. Neste seu extraordinário novo romance, Nicole Krauss criou algumas das personagens mais memoráveis e tocantes da ficção recente numa história transbordante de imaginação, humor e paixão.

ISBN: 9789722029933 – D.Quixote / 2006 – 320 páginas

Leopoldo Gursky apaixonou-se aos dez anos de idade, na sua cidade natal de Slonim. Decidiu naquele momento que Alma seria a mulher da sua vida e a verdade é que não houve nenhuma que se pudesse comparar a ela, durante a sua idade adulta até ao dia da sua morte. Contudo, Alma também foi a sua musa inspiradora em todos os sentidos. Conforme se ia apaixonando, Leo, foi escrevendo aquela que foi a história de amor mais importante da sua vida e nunca imaginou que este viria, mais tarde, a tornar-se um livro muitíssimo importante para outras antas vidas, já muitos anos depois.
A verdade é que após Alma ter emigrado para os Estados Unidos da América, Leopoldo ficou para trás até conseguir ganhar dinheiro suficiente para ir ter com a sua amada. Quando o conseguiu fazer, as coisas não correram como tinha imaginado. Como tinha sonhado. Mas para trás ficou o seu legado, o livro que escreveu que foi inspirado no amor da sua vida, na sua razão de viver.
O livro acabou por viajar pelo mundo até chegar às mãos de uma jovem de 15 anos, chamada Alma (e não, não é uma coincidência ao acaso) que quer libertar a sua mãe da solidão em que vive desde que o seu marido faleceu devido a uma doença prolongada.
Isto porque A História do Amor não é um livro qualquer e nas suas linhas tem qualquer coisa de especial, de curioso, de mágico, que só aqueles que já amaram é que poderão compreender. 

Descobri este livro no início deste ano e até agora permaneceu firme na minha wishlist à espera de uma boa oportunidade para o comprar. Embora essa oportunidade nunca tenha chegado a aparecer, por um acaso do destino uma amiga reparou que eu queria ler este livro e fez-me uma surpresa enorme ao ter-me emprestado este livro. Fiquei exultante, pois há mesmo muito tempo que andava a querer ler este livro. A primeira vez que me cruzei com este título já sabia que tinha que ler este livro. Nem nunca cheguei a ler a sinopse ou a pesquisar algo sobre a autora. Tinha cá para mim que este seria um daqueles livros que apelam a uma parte de mim que tento manter escondida, por diversas razões. Simplesmente sentia cá para mim que este livro me iria mudar de alguma forma, mesmo que ainda não soubesse nem como nem porquê, tal como não sabia até que ponto é que o livro me iria mudar, embora soubesse perfeitamente que o livro teria a possibilidade de o fazer.
E assim foi.

Comecei devagar, estranhando a predilecção da autora em focar-se em pormenores que pareciam no início estar isentos de significado. Não sei bem em que momento do livro me apaixonei. Sei que foi algures numa linha do primeiro capítulo, quando se reflecte sobre um amor jovem, que é impossivelmente inocente ao início e tão repleto de ternura ao mesmo tempo. Sei que teve algo que ver com sorrisos, questões e respostas. Sei que teve que ver com partes do corpo feitas de vidro e com declarações de amor. Sei que teve que ver com a forma como a autora descreve de forma tão insólita, o que é o amor e como o podemos sentir e como esse sentimento dá forma e consistência a variados aspectos da nossa personalidade.
A escrita de Nicole é maravilhosa, mas esta não é uma palavra suficientemente ilustrativa da beleza da sua escrita, particularmente no que toca aos pontos de vista da jovem Alma Singer, que me tocou o coração em cada palavra, até mesmo naqueles momentos que parecem mais insignificantes.

Se é uma história que ao início não parece clara ou talvez demasiado pormenorizada é porque todos os pormenores se vão encadeando conforme se avança na leitura e rapidamente a nossa mente começa a fazer sentido daquilo que lemos anteriormente e que à primeira nos pareceu não ter qualquer sentido. É uma escrita com bastantes floreados, em que as palavras têm um significado que ecoa por muito tempo na nossa cabeça e obrigatoriamente reflexiva e que propõe ao leitor que este se embrenhe na história com dedicação, que se apaixone tantos pelas personagens como pelo enredo e que ao mesmo tempo aproveite a viagem o máximo que possa.

Tem frases lindas em todo o livro, que devo dizer, recheou o meu bloco de notas. Como posso explicar o que senti durante esta leitura? Apeteceu-me em alguns momentos chorar de frustração porque algumas situações disseram-me muito. Noutros momentos, apeteceu-me gritar de alegria pois os personagens estavam no caminho que eu queria que eles seguissem. Noutros ainda, fiquei com olhar completamente desfocado, porque a escrita da autora levou-me variadas vezes a reflectir sobre o destino, sobre emoções, sobre comportamento humano, sobre mortalidade, sobre amor. Sobre borboletas. Sobre extinção. 

A pergunta que me ficou na cabeça é também uma mensagem de esperança, para mim, que em certos momentos da vida, tendo a ter uma visão negativa do mundo e por outras vezes, uma imagem ainda mais negativa da natureza humana. Hoje em dia, olhando para o mundo tal como ele se apresenta agora perante nós, vejo que o sentimento e mais propriamente o amor é desvalorizado por todos nós. As palavras são igualmente desvalorizadas. Quantas vezes nos saem das bocas palavras que não queremos proferir, coisas que não sentimos, não é? Não vou discorrer sobre o que sinto sobre este assunto, mas acredito que estes dois valores, digamos assim, são sobejamente desacreditados, quando deviam ser valorizados e tidos em conta, mais do que tudo. Por isso mesmo é que este livro falou comigo. Por me mostrar que o contrário também é verdade, também é possível, também acontece. É preciso é encontrar as pessoas que o sabem fazer. Mostrou-me que o amor não se encontra em vias de extinção e que as palavras são um dos mais belos legados que podemos deixar neste mundo.
É um livro que brilhantemente mistura conceitos como destino e mortalidade e consegue encontrar um equilíbrio entre os dois, que faz com tudo faça sentido. Se colocarmos muito sentimento, uma pitada de mistério e vicissitudes da vida nessa mistura, o resultado é este livro fabuloso que me roubou o coração e tão depressa não o irá devolver.



    

Teia de Cinzas

Outono em Fjällbacka. Um pescador que acabou de recolher os ovos de lagosta que lançara ao mar está em estado de choque. No deck do barco jaz agora à sua frente o corpo inerte de uma menina. Enquanto Erica Falk desespera no seu papel de mãe, Patrick Hedstrom é mais uma vez chamado a desvendar o mistério daquela morte que vai afectar de forma devastadora a vida de muita gente que lhe é próxima. E enquanto a investigação vai decorrendo, os mistérios continuam: que pasta negra era aquela que a menina tinha no estômago quando foi autopsiada? Quem atirou cinza para um bebé que ficara por um momento num carrinho à porta da loja onde a mãe tinha ido fazer compras? Que cinzas eram aquelas que atiraram à bebé do próprio Patrick Hedstrom? Perguntas a que só a investigação da competente equipa liderada por Patrick Hedstrom poderá responder.


ISBN: 9789722045117 – D.Quixote (Leya) / 2011 – 487 páginas

Uma criança de sete anos é encontrada no mar. Todos os indícios indicam que esta morreu afogada. Um terrível acidente, um infortúnio. A pequena cidade de Fjällbacka está chocada com este acontecimento, totalmente inesperado. Afinal, foi uma pequena criança que morreu e isso toca qualquer coração. Contudo, a equipa técnica da polícia descobre que os pulmões da rapariga continham água doce nos pulmões, ao invés da água salgada que seria de esperar nestas circunstâncias particulares.
E isso faz com que esta tragédia assuma uma aura de irreal perante os habitantes da cidade, pois realmente, quem é que seria capaz de cometer um crime destes contra uma criança? Só pode ser um monstro, com certeza. Não existe outra possibilidade.
Erica fica particularmente chocada com estas notícias, pois a mãe da criança é sua amiga e foi o seu ombro em muitas das vezes em que Erica desesperou com a maternidade recente. Isto porque Maja, a sua filha e a de Patrick, tem apenas alguns meses e está a revelar-se uma bebé de trato difícil, segundo a mamã que passa a vida cansada, no sofá a ver televisão, sentindo que a sua vida tomou um rumo inesperado. 
Assim, esta tragédia, aconteceu perto de casa e Patrick, pensando no que poderia acontecer à sua própria filha, fica determinado a resolver este caso macabro o mais rápido possível. Tudo seria melhor se ele não fosse obrigado a trabalhar com Ernst, o totalmente incompetente colega, que é completamente insuportável e sem nenhum sentido de ética…

Há muito tempo que já não lia nenhum livro desta série, apesar de ser uma das minhas preferidas no campo do policial. A sério. Há mais de um ano.
A razão é simples – quando tenho alguma série de que gosto muito, tenho sempre alguma relutância em ler logo os livros, porque gosto de antecipar o momento em que leio os livros, de construir as minhas expectativas e gosto simplesmente de saber que na prateleira estão os livros daquela série à espera para eu os ler, quando eu sentir que o momento é o certo. E quando comecei a sentir saudades desta autora, decidi que já era tempo de eu ler mais um livro do Patrick Hedström e da Erica. 
Gosto muito deste casal e foi com grandes expectativas que comecei esta leitura. Não só esperava que o caso, que o mistério fosse algo cativante, como desejava saber como é que Erica e Patrick se iam dar com uma filha em mãos. 
Sem dúvida que as minhas expectativas foram correspondidas. Como sempre acontece com esta autora, aliás. 
A sua escrita consegue sempre aliciar-me a uma leitura rápida, fluída e sempre pontilhada por muito interesse da minha parte em construir teorias verosimilhantes e em desvendar o mistério que está presente em todo o enredo. 
Desde o primeiro livro que esta série me prendeu o interesse, como podem ver pelas opiniões aos volumes anteriores. A autora sempre conseguiu conquistar-me com a sua escrita, com a sua mestria em construir um bom caso, um bom mistério e com umas personagens (tanto as boas como as más da fita) bem exploradas. O terceiro livro desta série não foi, de todo, nenhuma excepção. 

As personagens que já conhecia dos livros anteriores continuam a crescer e a evoluir a cada livro e é muito interessante ver o rumo que a autora está a escolher para cada um. É importante para mim como leitora acompanhar o progresso deles, pois a cada livro que leio e cada vez que volto a este universo, eles são pessoas com as quais eu convivo. Além dos protagonistas, pelos quais já exprimi a minha satisfação, tenho de destacar o Martin – colega  e parceiro do Patrick – que tem vindo a ter mais destaque e está a ser uma personagem que estou a adorar acompanhar. É um doce. 
Por outro lado, aquelas personagens que são temporárias e só aparecem neste livro, estando ligadas ao caso policial em questão, também foram bem exploradas, à excepção provavelmente de Niclas. Acho que foi uma personagem infeliz, muito unilateral e gostava que a autora tivesse escolhido mostrar este homem sob outra luz. 

Acerca do enredo e do caso, não tenho muito a apontar. A autora conseguiu, brilhantemente, construir exactamente aquilo que se pretende nos livros deste género particular. Um homicídio repugnante envolto em muito mistério, segredos que vão sendo, lentamente, descortinados e onde o véu da verdade é gradualmente levantado.
A autora costuma de facto, surpreender-me sempre com o assassino. O que é usual no género é eu acertar em algumas coisas, mas falhar nas mais fundamentais. Contudo, este livro revelou ser um pouco mais óbvio para mim, porque creio que a autora mostrou uma inclinação especial para a personagem, com descrições que me saltaram à vista logo desde cedo. Por isso, este foi talvez o primeiro livro da série em que consegui descobrir o assassino principal e falhar em alguns detalhes secundários. O que no final interessa é que Camilla conseguiu surpreender-me na mesma com esses detalhes, que foram limados nos últimos capítulos.

Uma leitura em nada desapontante e que matou as saudades que tinha de ler um policial que me obrigasse a pensar sobre cada passo de cada personagem e que me obrigou a reflectir sobre os motivos ocultos e as verdades escondidas de cada pessoa que passou por este livro. Camilla Läckberg continua assim, na lista de preferências no que toca a autores que escrevem bons policiais. 

Para quem gosta do género e até para quem acha que não gosta, mas gostaria de abrir horizontes, é uma boa aposta. 

Opiniões da mesma autora:
  

A Mulher Certa




Em Budapeste uma mulher conta a uma amiga como descobriu o adultério do seu marido. Por outro lado, um homem confessa a um amigo como abandonou a sua mulher por outra, e uma terceira mulher revela ao seu amante como se casou com um homem endinheirado para sair da pobreza. Três vozes, três pontos de vista, três sensibilidades diferentes desvendam uma história de paixão, mentiras e crueldade.




ISBN: 9789722031042 – D. Quixote (Leya) / 2007


O que fazer quando descobrimos que o nosso marido nunca nos pertenceu totalmente e ao invés se encontra há longos anos apaixonado por outra mulher? O que fazer quando sabemos que o nosso casamento está completamente arruinado mas não temos coragem para abdicar dos votos que fizemos neste dia tão sagrado?
O que fazer quando sabemos que apesar de não odiarmos a mulher com quem casámos há tanto tempo, pertencemos corpo e alma a outra mulher que espera por nós em silêncio, sem nenhuma palavra ou sentimento, proferir? Como é que podemos decidir acabar um casamento com tantos anos ou dar preferência à mulher que povoa os nossos sonhos há igualmente tanto tempo?
O que fazer quando vemos o homem por quem estamos apaixonadas casar com outra mulher e seguir a sua vida, enquanto esperamos para que ele se aperceba de que não é feliz e que apenas o pode ser connosco ao seu lado? O que fazer quando esse sentimento acaba por passar e nos realizamos de que só casámos com esse homem para sair da pobreza e para provar a boa vida que o ricos têm? Para saber o que é ter dinheiro sem nunca nos faltar nada? 
E o que fazer quando andamos à procura de uma coisa que não conseguimos encontrar?

A Mulher Certa é um livro que nos conta três histórias diferentes, cada uma delas, da perspectiva de uma personagem diferente mas interligadas entre si. A mulher, o marido e a “outra”. São três pessoas que nos falam sobre os meandros das relações humanas e sobre os relacionamentos em si, de forma que até eles próprios consigam perceber o que leva o ser-humano a amar, a trair, a conquistar, a desistir, etc.

Eu já conhecia o trabalho do escritor Sándor Márai, através da obra intitulada, As Velas Ardem Até ao Fim, que me conquistou completa e irremediavelmente. A escrita do autor, com grande ênfase nos monólogos, é de uma genialidade nunca antes vista para mim e a percepção que o autor tem não só das relações humanas mas também do mundo em geral e a forma como nos relacionamos todos é de uma brutalidade muito refrescante. 
Não só acabamos por concordar com alguns dos raciocínios de Sándor como também acabamos por reflectir seriamente na questão que perduram, quando a leitura chega ao fim – no que é que se baseia realmente as relações humanas?

Confesso que o me faz adorar este escritor é exactamente a forma como ele fala sobre os sentimentos e a forma como ele apresenta ao leitor a realidade da condição humana. No decurso da nossa vida, conhecemos muitas pessoas, mais do que imaginamos e mais do que as podemos contar. Contudo, nem todas são fundamentais no nosso percurso. Umas tornam-se importantes e acabam por se tornar uma parte imprescindível, outras nem por isso (vêm e voltam). 
Essas pessoas que passam por nós e que deixam marca, muitas vezes chegam a magoar-nos de alguma forma e acabamos por sofrer. No entanto, esta é apenas uma ligação temporária, mesmo que se tenha mantido na nossa vida por mais tempo do que qualquer outra pessoa. 
E acabamos por nos aperceber que apesar de todos nós precisarmos de afecto e sermos todos seres emocionais, as ligações são temporárias e não nos cabe só a nos tentarmos fazer com que essas ligações durem o mais tempo possível. 
No fundo, Sándor Márai é um filósofo. O seu tema favorito é exactamente o que já referi – os meandros das relações humanas e os sentimentos que se geram entre duas pessoas, tal como amizade, amor, ódio. E eu não consigo deixar de me «apaixonar» pela forma como ele pega numa situação altamente usual, como é o casamento entre duas personalidades e acaba por levar o leitor numa viagem sentimental, para conseguirmos perceber em conjunto com o autor de que forma é que duas pessoas que estão casadas por largos anos, acabam por dissolver essa união e de que forma é que essas duas pessoas lidam com isso e o que sentem.
Estas questões e outras mais genéricas são analisadas pelo autor de uma forma apaixonante e algo negativista por vezes, mas que geralmente se coadunam com a verdade. 

Porque na verdade, o que é o sentimento? Porque é que o raciocínio não funciona sem ter a seu lado, a emoção? Que espécie de equilíbrio existe entre estes dois conceitos?

A Mulher Certa é uma obra, que à semelhança da anterior, me fez repensar e reflectir muito sobre as relações que uma pessoa faz e estabelece durante toda a sua vida e dá que pensar. É uma obra muito estimulante e que vai permanecer na minha cabeça durante muito tempo.
Com isto tudo, Sándor Márai acaba de ganhar uma nova fã. Um escritor que pela segunda vez consecutiva me conseguiu envolver de uma forma completamente inédita. 



As Velas Ardem Até Ao Fim

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular…

ISBN: 9789722020626 – D. Quixote (Leya) / 2001




Entre uma floresta húngara, existe uma mansão imponente pertencente a um general. Após a morte deste, a mansão foi herdada pelo seu filho, que sempre acreditou que a vida lhe ofereceu as melhores sensações que se pode ter. O filho do general desde a sua meninice que tem um amigo que é como se fosse uma extensão do seu próprio corpo, da sua própria personalidade. Durante 22 anos, ambos viram esta amizade florescer e prosperar sob os olhos de todos os seus conhecidos, que ficavam admirados por ver tal relação. 
No entanto, de um momento para o outro e sem qualquer aviso, esta amizade chega a um momento em que parece parar no tempo, fica em suspenso durante 40 anos. Sem qualquer aviso anterior, estes dois amigos perdem o contacto durante 4 longas décadas. Cada um deles viveu a sua vida, atingiu (ou não) os seus objectivos, sorriu quando pôde, chorou quando quis. O filho do general, depois de viver muitos anos no estrangeiro, acabou por se enclausurar dentro da sua mansão e ao mesmo tempo esta, começou a perder os seus encantos antigos e a sua vivacidade. O seu amigo mudou a sua nacionalidade e depois de ter vivido algum tempo em Londres, foi viver para os trópicos, zona geográfica que segundo os rumores, mudava de forma absoluta o carácter dos homens que lá vivessem. 

Passados 40 anos, estes dois amigos irão encontrar-se nesta mansão que já passou a época do seu esplendor há muitos, muitos anos. Os dois amigos irão sentar-se na mesa do salão de jantar e irão reviver um jantar muito similar a este, que teve lugar no mesmo salão há 4 décadas atrás. Irão reavivar sentimentos passados e irão por fim, perceber até que ponto a amizade deles é genuína. Irão aperceber-se de que o segredo que se interpõe entre os dois é demais para sustentar a sua amizade e vão, por fim, desenterrar todos os ressentimentos e tudo aquilo que minou aquela que foi uma ligação de 22 anos. 

De que forma é que podemos definir a amizade? A maneira de descrever tal relação é muito vasta e pode ser feita das mais variadas maneiras. Até podemos dizer que a amizade é um relacionamento humano onde várias características saltam à vista: a afeição, lealdade, o facto de sabermos tudo sobre a(s) outra(s) pessoas. A amizade envolve de igual forma o altruísmo. Poderíamos ir buscar muitas definições para definir esta palavra latina, que se crê ter derivado da palavra amor
Contudo, até que ponto uma amizade entre duas pessoas vai? O que é que se pode exigir ou não exigir de uma amizade desse tipo? E até que ponto é que podemos ter a certeza que essa pessoa é cem por cento nossa amiga, ou não se crê apenas ser nosso amigo, mas acaba por se revelar outra coisa totalmente diferente?
Será que uma amizade pode ter segredos? Será que se uma amizade começar a alimentar um segredo, a relação fica igual? Poderá sobreviver a tal provação? 

Já tinha ouvido falar neste livro há alguns anos, mas a verdade é que nunca pensei que o chegasse a ler tão cedo. Contudo, muito recentemente durante uma conversa sobre livros inesquecíveis, o título deste livro foi mencionado e decidi que seria finalmente este ano que acabaria com as dúvidas e que leria o livro de uma vez por todas. Não havia razão para adiar mais, afinal o livro era tão pequeno que num instante estaria lido. E assim foi a minha estreia com o autor Sándor Márai que acabou por mudar a minha vida na mais subtil das maneiras. 
Nunca esperei que este As Velas Ardem Até ao Fim me afectasse da maneira como afectou. De facto, não sabendo, no início da leitura, o que esperar desta obra, nunca poderia adivinhar que o autor iria pegar numa temática tão interessante como é a amizade e tudo aquilo que implica esta relação humana (que implica muito mais do que aquilo que estamos à espera). 
A escrita do autor é simplesmente maravilhosa. Além de envolver o leitor de uma maneira quase enfeitiçadora, é capaz de fazer com que este reflicta sobre a ordem das coisas. Apesar do autor ter um relato bastante preciso, tem o dom de formular questões que atingem o seu leitor bem no centro da sua consciência. Estas perguntas pairam no nosso espírito sem resposta e é nesse momento em que nos vemos envolvidos na obra, sem existir nenhum remédio para o mesmo, que não seja continuar a ler na esperança de que o autor responda concisamente a estas questões. 

É altamente provável que o leitor tenha, nalgum momento da sua vida, reflectido sobre estas questões da forma mais imperceptível que existe. As questões pairavam à beira da sua consciência, nunca sendo realmente analisadas em profundidade. Inconscientemente, o leitor sabe perfeitamente que as perguntas lá estão à espera de ser respondidas, mas nunca sentiu inclinação para tentar encontrar a resposta ou simplesmente acha que as respostas virão com a vivência da vida. No entanto, ao ler esta obra, essas perguntas deixam simplesmente de pairar à beira da nossa consciência e o leitor passa a activamente procurar essas respostas, correndo o risco de acabar visivelmente frustrado, pois a resposta a estas perguntas não se encontram ao virar da esquina. Esta obra aponta directamente à dúvida fulcral de um dos vários aspectos da nossa existência – o que é amizade, o que podemos exigir do nosso amigo, como aceitar as diferenças, como aceitar que o nosso amigo mantenha um segredo e que isso mine a relação.

O autor reflecte sobre vários aspectos da amizade e o leitor vai igualmente percebendo que segredo é que se interpõe entre estes amigos e vai poder perceber igualmente de que forma isso prejudica a relação entre os dois. As perguntas que o autor deixa no ar atingiram-me de tal maneira que acabei por chegar ao final da obra como que dormente, anestesiada. Após essa reacção inicial, acabei por retornar bruscamente à realidade, como se tivesse acordado de um pesadelo. E percebi que a forma como o autor retrata a natureza humana, como apresenta a origem das relações humanas nunca antes fez tanto sentido para mim como agora. Adorei a forma como o autor me fez pensar seriamente sobre as ligações humanas que formamos ao longo da nossa vida – umas importantes e fundamentais, outras nem por isso – e acabei por reflectir sobre de que forma essas ligações humanas nos moldam para a vida futura, de que forma moldamos o nosso carácter e nos adaptamos a pessoas diferentes, sem nunca percebemos na totalidade o que é que podemos exigir dessa ligação. Sem nunca atingir o verdadeiro objectivo de tal ligação e sem conseguir responder à pergunta que sabemos que paira lá atrás da nossa mente – esta pessoa seria capaz de trair esta amizade? Seria capaz de trair a minha confiança? Seria capaz de destruir esta ligação por qualquer motivo?

As velas arderão até ao fim, mas as perguntas manter-se-ao até depois disso, deixando que a nossa mente ande às voltas até encontrar uma solução para tal dilema, sem nunca encontrar uma resposta que a satisfaça completamente. Uma obra realmente inesquecível, um livro que manterei junto do coração para o resto da minha vida. 


   

Opinião – Gritos do Passado

Opinião:

Este é o segundo livro da série Patrik Hedström da autora Camilla Läckberg. Já tinha ficado com uma impressão extremamente positiva acerca da escrita da autora no primeiro volume e este livro só veio cimentar essa opinião. Foi com muito agrado que li este livro. 
A pequena cidade de Fjällbacka volta a ver-se a braços com um criminoso perigoso à solta que rapta jovens mulheres, tortura-as e depois de mortas transporta-as para um parque, onde são posteriormente encontrados os seus restos mortais. Foi com alguma ansiedade que comecei esta leitura. Já tinha saudades do inspector Patrik, que com uma personalidade única e cativante, nos transporta para este mundo de crime, onde nem tudo é o que parece.
Este livro foca-se em grande parte na religião. Mas não é uma religião qualquer, é uma religião que se torna distorcida sob a visão de algumas pessoas. Foi muito interessante ver a autora a explorar este tema e a criar personagens à altura. 
Além disso, esta criou também a família Hult, que é uma família cheia de intrigas e segredos que escondem de toda a gente. Foi uma experiência enriquecedora tentar descortinar todos os segredos que a família carregava dentro das paredes das suas propriedades.
Em termos de mistério e imprevisibilidade, este livro deixou algo a desejar, comparando com o primeiro. No primeiro, fui claramente surpreendida com certos aspectos da trama. Neste, as minhas teorias não se afastaram da realidade. Aliás, andei sempre nos arredores da verdade, sendo que apenas pequenos pormenores falharam. Devo confessar que eu gosto em igual medida de ser surpreendida, como gosto de acertar nas coisas.  No entanto, estava convencida que a autora me iria trocar as voltas, visto que muita gente me disse que a autora tinha sido algo rebuscada neste livro.
Tal não aconteceu, mas de qualquer forma, gostei de toda a dinâmica de que este livro foi alvo. 
A autora continua a ter um ritmo de escrita mais vagaroso, mas já me começo a habituar a tal característica. No entanto, notou-se mais acção neste livro e como disse anteriormente, também mais dinamismo. 
A começar por este livro ter mais capítulos do que o anterior, o que permite ao leitor não ficar cansado com capítulos tão extensos (o que é o meu caso, visto que eu só gosto de parar o livro, quando acabo um capítulo).
Este livro conta também com algumas cenas humorísticas, em que a personagem principal é a Erica, que está grávida do seu primeiro filho. Acontece que Erica, com a sua boa educação, não consegue recusar quando familiares ou amigos, lhe pedem guarida na sua casa. No entanto, estes mal agradecidos hóspedes aproveitam-se de Erika sem pensarem duas vezes na sua condição de 8 meses de gestação. Foram momentos de diversão, que só trouxeram vantagens para a trama em geral. 

Com este livro, afiro que é mais uma série que vou seguir diligentemente. (mais uma, que surpresa).
Esperemos que os próximos livros sejam tão bons quanto este. Estou muito contente com esta descoberta nórdica, embora perdoem-me – Ai de quem a comparar com Agatha Christie.