O Deus das Moscas

Vencedor do Prémio Nobel da Literatura do ano de 1983, O Deus das Moscas é um livro que granjeou os maiores elogios da área. Um clássico moderno que 57 anos depois continua a admirar os seus leitores e continua ainda a suscitar curiosidade entre quem ainda não leu. Eu inseria-me nesta última categoria. Tendo ouvir falar muito bem deste livro, mas sem que a oportunidade de o ler se apresentasse, foi difícil saciar a mesma. 
Só agora é que consegui fazer uma leitura satisfatória desta obra e entrar no mundo que William Golding tão curiosamente descreve.

A premissa do livro é igualmente misteriosa e parece bastante simples à partida. Um avião despenha-se numa ilha dada como deserta. Quem vinha no tal avião é um grupo de rapazes. Alguns são meras crianças, outros pré-adolescentes. No entanto, ao início tudo isto parece uma aventura e as crianças aproveitam da melhor maneira este sentimento de liberdade inesperada. É eleito um chefe, que está destinado a ser o adulto que toma as decisões e assume as responsabilidades. Com um grupo tão diversificado, todos conseguem arranjar as suas próprias funções para que possam sobreviver da maneira mais confortável possível, neste local inóspito. 
Contudo, os protagonistas desta obra são meras crianças e os medos rapidamente começam a manifestar-se sob forma de pesadelos. Já nem tudo é sol e brincadeira. Agora, as crianças tão inocentes que eram, vêem-se transformadas na imagem da dureza e da responsabilidade em que fazem tudo para poderem sobreviver. 

Este livro não foi nada do que eu estava à espera. Na verdade, eu própria não sei muito bem do que estava à espera, quando peguei neste livro para o ler. Esperava inocência? Talvez.
Esperava ingenuidade? Também, um pouco. 
Afinal, as crianças são o mote principal nesta obra e embora se possa alegar que estas características existem, só são perceptíveis no início desta “aventura”. 
A escrita de William Golding é algo intrincada e complexa, pelo que embora este livro seja bastante pequeno, é necessário que se leia com atenção, senão alguns pormenores podem escapar à atenção dos leitores. 
Eu própria tive de voltar diversas vezes atrás, porque me senti confundida em certas passagens do livro. 
Certamente, fiquei impressionada com algumas descrições e ainda mais quando tive realmente a percepção do que significa a sobrevivência de que o autor fala. 
As crianças deixam de ser meras pessoas alegres, despreocupadas que só pensam em brincadeira. Aliás, tudo o que resta de criançada nestes seres humanos, é provavelmente a estatura dos mesmos. 
Aquilo que os move é um sentimento de desespero, para tornarem a vida deles na ilha confortável. Tentam combater os medos como podem, mas estas são levadas ao extremo quando vários obstáculos ameaçam ruir o sentido de ordem que o leitor conheceu no início.

É uma obra perturbante, pelas descrições que faz. Uma obra assustadora, se o leitor tentar relacionar a narrativa com a realidade. Uma surpresa, pois nunca pensei gostar deste livro. 
William Golding conseguir chocar um pouco as minhas sensibilidades, fez-me reflectir as circunstâncias extremistas a que um ser-humano pode estar exposto e como decide actuar nesses momentos. 
Estas acções, feitas no calor do momento, podem realmente ser julgadas por aquilo que são?

No entanto, tenho pena que o autor não tenha explorado outras avenidas de pensamento, tal como a exploração dos próprios personagens e as circunstâncias onde eles se encontravam. A extensão do livro não poderia de facto permitir tal divagação, mas este é um livro que merecia um maior desenvolvimento.

Uma obra muito curiosa! Deixou-me a pensar, mesmo depois de ter fechado o livro. Recomendado.




   
  
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O Rapaz do Pijama às Riscas

Opinião:

Nem todos os livros precisam de muitas páginas para passar uma mensagem. Este é um exemplo marcante.
O Rapaz do Pijama às Riscas é um livro sobre o Holocausto, contado sobre a perspectiva de Bruno, uma criança de 9 anos. O livro é pequeno, nem chega a 200 páginas, mas desenganem-se aqueles que acham que é preciso mais páginas para contar esta história. A verdade é que não é o número de palavras que contam, mas sim a forma como se as utiliza. 
Este livro conta-nos a história de Bruno e da sua família – pai, mãe e a irmã Gretel. Bruno chega um dia a casa e vê a criada Maria a empacotar os seus pertences. Quando questiona a mãe sobre isto, a mãe apenas lhe diz que a família vai sair de Berlim pelos “tempos próximos”. 
O menino de 9 anos que é francamente inocente, não consegue compreender porque é que eles têm de se mudar da sua maravilhosa casa em Berlim, que tem 5 pisos e tem um corrimão por onde ele pode escorregar, indeterminadamente para um sítio tão inóspito e desagradável como Acho-Vil (Auschwitz).
Bruno só está preocupado com o facto de neste novo sítio não ter amigos com quem pode brincar, até um dia em que decide percorrer o caminho junto à vedação de arame que se encontra em frente a sua casa, encontra um menino sentado de pernas cruzadas, vestido com um pijama cinzento às riscas. E é aqui que começa a verdadeira história e o começo de uma amizade.

John Boyne acaba por tentar passar uma mensagem, pelos olhos inocentes de Bruno. Embora ache que o autor exagerou um pouco na inocência do menino, com expressões como Acho-Vil (Auschwitz) e Fúria (Führer) acabou por tirar um pouco a credibilidade, ou seriedade, ao relato que o autor nos mostrou. Creio, e posso estar enganada, que um menino de 9 anos, não é assim tão ignorante ou desconhecedor -dizendo melhor- ao ponto de se manter à margem daquilo que acontece, mesmo quando os adultos o tentam ensinar vezes e vezes sem conta. 
Por outro lado, acho que o autor acabou por criar esta personagem propositadamente assim, porque de alguma forma, ele consegue trabalhar com sentimentos que contrastam e que deixam uma marca mais definitiva no leitor. 
Ao criar uma personagem tão inocente como o Bruno, o leitor sente rapidamente empatia pelo menino, o que torna todas as circunstâncias do enredo mais intensas. Acho que foi com este sentimento que o autor jogou e conseguiu ter sucesso naquilo que quis atingir. Só por isso, já valeu a pena a leitura desta pequena obra. 

Assim, o autor focou todos os pontos de interesse: Holocausto, inocência, ignorância, amizade e conseguiu de uma forma bela, falar de algo tão atroz, como foi esta época histórica, ainda que fascinante. É uma leitura que recomendo sem qualquer reservas. E embora possam haver os leitores que achem que o livro poderia estar melhor, haverão outros com certeza, que como eu, aufiram que o autor fala de uma forma bela, que as amizades para a vida podem surgir em qualquer circunstância, em qualquer lugar e podem florescer entre duas crianças que de outra forma, não estariam destinadas a relacionar-se uma com a outra.
É uma obra que nos faz pensar e reflectir que a beleza da vida se pode encontrar até no sítio mais inóspito e desagradável (como certamente é um campo de concentração). E que a amizade não pode ser impedida, mesmo quando as pessoas estão separadas por vedações de arame farpado. 

Acho que John Boyne foi bem sucedido a capturar todos estas nuances e foi uma leitura que me agradou sobremaneira. Recomendo a qualquer pessoa. 




Opinião – Os Homens que Odeiam as Mulheres

Opinião: 

Este livro foi a minha estreia com policiais nórdicos. De certeza que já devem ter ouvido falar deste livro. Fui desenterrar estas opiniões, porque vou novamente debruçar-me noutra autora nórdica e creio que para o arquivo de opiniões é sempre bom contar com variedade. Durante os próximos 2 dias irei publicar as opiniões dos livros seguintes. 

Que fascinante, adorei. Agarrei-me à história com garras e dentes, logo nas primeiras páginas. Adoro policiais, que me prendam logo nas primeiras páginas, porque não consigo resistir a ir acompanhando o enredo com as minhas próprias teorias.
No início do livro vi-me algo confusa, era difícil saber quem era quem, com tanto nome. Especialmente quando o Henrik, uma das personagens que mais peso tem neste livro, começa a descrever grande parte da sua família. Só pensava “que grande baralhada, não vou saber quem é quem”. Mas, pelo contrário, logo se reduziram a apenas alguns nomes que iriam ter uma parte importante na história, muito mais fáceis de memorizar e apenas por coincidência com nomes muito mais legíveis (vá-se lá perceber e tentar memorizar alguns nomes suecos que apareciam). Para quem não se encontra habituado, é capaz de estranhar – ainda mais para quem não se encontrava, até este momento, familiarizada com obras literárias do Norte da Europa.

Como já disse atrás, fui formulando a minha teoria…e no momento de revelação estava completamente tudo errado.
Bem, para ser totalmente sincera, nem tudo se encontrava completamente errado, mas grande parte das coisas, especialmente acontecimentos importantes, nos quais eu tinha realmente falhado o alvo. É uma característica que a mim tanto me frustra como me cativa mais para o resto da leitura. 

O autor construiu neste volume personagens interessantíssimas e sobre as quais vou gostar muito de ler. A Lisbeth é uma personagem que eu admiro e que me surpreende a cada linha que leio. É também a pessoa mais misteriosa e sobre a qual mais vou gostar de conhecer para os próximos volumes. 
Digo-vos que há muito que não encontrava um policial que me fizesse revirar na cama, com tantas possibilidades. Confesso que já suspeitava de tudo e de todos. 
Outra personagem que merece bastante destaque é o tutor da Lisbeth. Uma personagem cheia de força, um pilar para a Lisbeth. Espero também que ele volte a aparecer nos próximos volumes.

Os livros são certamente extensos, podem vocês pensar. Mas garanto-vos que o autor vos vai conquistar com a sua escrita e com a mestria com que ele revira os acontecimentos. Um policial frenético. 

E irei certamente ler os restantes livros. Recomendo, mesmo para quem não seja fã de policiais. Os nórdicos vieram para ficar.

Opinião – A Sombra do Vento

Editor: Leya / 2011
Chancela: Bis
ISBN: 9789896600815
Formato: Livro de Bolso
Núm. páginas: 528
PVP: 9,95€

Sinopse:
Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito, que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona.
Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento é sobretudo uma história trágica de amor, cujo eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.
A Sombra do Vento é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do Modernismo até às trevas do pós-guerra. Um inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros num crescendo de suspense, que se mantém até à última página. 

Opinião:
Este é já o segundo livro que leio do aclamado autor Carlos Ruiz Zafón. A minha estreia deu-se com o livro “O Jogo do Anjo” – poderão ver a opinião dele aqui. Como esta tinha sido uma experiência fantástica decidi aproveitar o lançamento deste livro de bolso e adquiri-lo. Como devem já imaginar, este é daqueles livros que é um sucesso. Só se vêem críticas a dizer maravilhas do livro, pelo que se torna impossível de não ficar curioso e ver se os “rumores” serão mesmo verdadeiros. 
Até antes de acabar o livro, já tinha chegado à conclusão que o autor merece mesmo as críticas maravilha de que as obras dele são alvo. Os livros dele são um fenómeno quase inexplicável. A escrita do autor agarra o leitor logo na primeira linha e deixa-o cativo das suas palavras até mesmo depois de o livro se fechar. 
Já me havia acontecido isso mesmo na leitura d’ O Jogo do Anjo e este A Sombra do Vento não foi nenhuma excepção.

Este livro transporta-nos novamente para Barcelona, mas desta feita, em vez de ser a Barcelona dos anos 20, vemo-nos numa cidade um pouco mais madura, em que o protagonista é o neto do dono da livraria Sempere & Filhos. 
O autor volta a deliciar-nos com as descrições do Cemitério dos Livros Esquecidos, que é para mim, outra forma de paraíso. E com certeza, também o será para outros bibliófilos.
Todo o livro está envolto numa névoa de suspense e é impossível largar o livro até descobrirmos a raiz de todos os problemas, a raiz do que motiva a história. Apeguei-me logo aos personagens do livro e sofri quando eles sofriam, sorri quando eles sorriam. Muito mais porque fiquei maravilhada com a família Sempere já no anterior livro, e fiquei bastante contente por saber que o autor não deixou estes personagens no esquecimento.
Embora, no meu caso, tenha conseguido, com relativa facilidade adivinhar o mistério que se prolongou ao longo de todo o livro, este livro ainda consegue ser melhor do que a leitura que lhe antecedeu. Apesar de terem ambos uma história magnífica, sem igual no mundo da literatura (com a qual me tenha deparado), este A Sombra do Vento acabou por me conquistar irremediavelmente. 
Zafón tem uma escrita intrincada, algo complexa e simplesmente deliciosa. O leitor mergulha, sem nenhuma hipótese nas palavras que se transportam de página para página e quando o livro acaba, é invadido por um sentimento agridoce. Feliz porque o livro excedeu as expectativas, um pouco tristonho porque queria mais e não quer que este mundo encantado algo obscuro acabe.

Eu, cá fico a ansiar pelo próximo livro que poderei ler dele. Um livro para ler e reler. Um talento inesquecível.