Admirável Mundo Novo

Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.

 ISBN: 9789723828184 – Livros do Brasil / 2007 – 260 páginas

O Hobbit

Imagine uma sociedade hierarquizada, dividida por castas. Os seres-humanos que constituem esta sociedade estão divididos por várias classes, dispostos por uma certa ordem. Os Alfas, os Betas, os Gamas, os Deltas. Mesmo dentro das classes, há uma hierarquia. Cada casta contribui com uma função para que a sociedade funcione de forma perfeita. Foram condicionados assim. Quando eram bebés-proveta, foram manipulados geneticamente para que mais tarde pudessem exercer as funções que caracterizam a casta onde pertencem. Noções como “mãe” ou “pai” são conhecidas, mas não têm nenhum significado afectivo, pois estes indivíduos nunca conheceram uma mãe. De facto, coisas que consideramos normais como amamentação ou casamento e monogamia, são conceitos que são desprezados por esta sociedade. Ela elimina qualquer sentido de individualidade, sujidade, degradação. Mas também elimina a espiritualidade como a conhecemos, dando lugar à devoção de Ford – o inventor das linhas de montagem. Esta sociedade é devota da eficiência, da perfeição e da superficialidade. O objectivo máximo é produzir seres-humanos como se numa linha de montagem. A sua produção, por assim dizer, é feita por vários estágios. O condicionamento das suas personalidades termina quando atingem a idade adulta e a maioridade sexual. Esta produção de seres-humanos pretende criar um individuo que consiga eficientemente contribuir para o funcionamento da sociedade ao menor custo possível. Contudo, é um indivíduo que vive para o colectivo, pois um dos lemas desta sociedade é que todos pertencem a todos.
Nas reservas, nas periferias desta sociedade estão os selvagens. Aqueles que ainda alimentam conceitos como monogamia, Deus, etc.. Aqueles que vivem na sujidade e que são estudados como animais selvagens.

Admirável Mundo Novo é um clássico e um dos livros que mais sucesso gerou no universo literário. É uma utopia, que nos apresenta uma versão daquilo que poderia uma sociedade perfeita. É um dos livros que ficou para a história e aqueles que toda a gente, pelo menos uma vez na sua vida, lê. Esta é uma obra que já queria ler há bastante tempo, por todos os factores que referi antes, mas também porque um dos meus livros favoritos de sempre é o 1984 de George Orwell. Sendo que a obra de Aldous Huxley precede a de George Orwell por alguns anos, tinha curiosidade em ver o que o autor traria de novo ao género utópico.
As utopias são livros que geram muita curiosidade em mim por uma simples razão: gosto da forma como os autores questionam os valores da nossa sociedade e  gosto da forma como manipulam os pilares das nossas crenças. Por outro lado, as utopias têm o dom de nos fazer pesar os prós e contras da sociedade em que vivemos. É a melhor maneira de nos fazer aceitar a nossa sociedade imperfeita, porque ao ler sobre estas sociedade ditas perfeitas, chegamos (quase) sempre à conclusão de que é com as imperfeições que encontramos equilíbrio nas nossas vidas. E depois, as utopias obrigam a considerar outras maneiras de pensar, outras estruturas sociais. Obriga-me a considerar o quanto a nossa sociedade é inconstante. Embora os nossos valores pareçam fixos e imutáveis, isso não é bem assim. As mentalidades mudam e a sociedade muda com elas. Daqui a 40 anos, podemos estar a viver numa realidade muito diferente desta.
Quero com isto dizer que as utopias são para mim, regra geral, leituras excelentes porque me estimulam o pensamento com questões que considero fundamentais para a existência de todos nós. Como é o caso da religião, da diferença do bem e do mal, das classes sociais, etc. .

Confesso que adorei a descrição desta sociedade dividida em castas e achei delicioso, o facto de ela assentar a sua devoção em Henry Ford. A primeira vez que li a referência “Ano de Nosso Ford” ri-me tanto porque achei genial. O facto de esta sociedade ser exactamente como uma linha de montagem explica perfeitamente a devoção que o colectivo tem a Ford. Logo aqui, o autor colocou em causa um pilar da nossa existência. E obriga a considerar a espiritualidade desta sociedade perfeita. Será que numa sociedade perfeita, a espiritualidade e a religião têm peso? Claro que sim. Então qual é a diferença da religião deles para a nossa? É que o Ford deles é concreto, é explicável. Dá respostas, é tangível.
Por outro lado, o facto de cada ser-humano ser condicionado toda a sua vida para exercer uma certa profissão é ao mesmo tempo, terrível e maravilhoso. Terrível porque limita a liberdade de escolhas desse ser-humano. A ideia de não podermos ter escolha sobre aquilo que queremos fazer é terrível, contudo, é maravilhoso porque os próprios indivíduos são condicionados a sentirem-se satisfeitos com a função que realizam e portanto não sentem que não tiveram liberdade nessa escolha. Eles são condicionados a sentirem-se absolutamente felizes com o lugar que ocupam naquela sociedade. Daí que se a casta mais baixa tivesse a função da mais alta, iriam sentir-se insatisfeitos. Isto erradica o problema de termos trabalhos dos quais não gostamos.

Contudo, até numa sociedade perfeita temos aqueles que se distinguem. É o caso de Bernard Marx, um indivíduo que teve um problema no seu condicionamento, diz-se. Para começar, ele não tem a estatura física da sua casta e também não se sente satisfeito com o seu lugar na sociedade. Além disso, é ambicioso e procura aceitação por aqueles que escarnecem dele. Por isso, quando visita a Reserva dos Selvagens e encontra John e decide levá-lo para o seio da sua sociedade. John, que sempre se sentiu curioso sobre o conjunto de valores pelos quais este sociedade se rege, é um mestiço – filho de uma ex-pertencente desta sociedade e criado na reserva – e tenta perceber e integrar-se neste mundo que lhe parece tão estrangeiro. Ele aprendeu a ler com Shakespeare, resquício dos valores antigos da sociedade de outrora e é fantástico ver a forma como ele tenta desconstruir e perceber esta nova realidade. Ele vem abalar esta sociedade e os valores pelos quais esta se segue, debatendo-se com aquilo que conhece e com aquilo que quer perceber. As referência de Shakespeare enquadram-se tão bem neste contexto, que fiquei absolutamente maravilhada. A escrita do autor não é fácil, por vezes, por isso é um livro que se tem de ler com alguma atenção, mas foi uma leitura fabulosa exactamente por esse aspecto. Adorei a narrativa do autor, ainda que algumas passagens tivesse que ler mais do que uma vez.

Como disse antes, as utopias são muito thought-provoking e enchem-me a cabeça de perguntas, considerações sobre os aspectos mais importantes da nossa existência. Há uma passagem nesta obra, um diálogo entre o Selvagem e o Administrador que se revelou, de longe, a minha parte favorita deste livro e ultimamente, aquilo que me leva a considerar esta, uma obra única.  Foi um diálogo que li mais que uma vez, por condensar em si, uma discussão fundamental a todos os nossos valores.

A opinião já vai longa e apesar disso, ainda sinto que poderia dizer muito mais sobre esta obra. Ainda assim, convido-vos a ler esta obra e a deliciarem-se com as questões que Aldous Huxley coloca sobre aquilo que acreditamos ser as directivas que regem a nossa vida.

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