O Processo

Um belo dia a existência pacata de Joseph K., um bem-sucedido gerente bancário, vê-se abalada quando três homens entram no quarto da pensão onde reside para o prenderem. Não sabe quem o mandou prender nem muito menos do que o acusam — sabe apenas que está envolvido num processo obscuro e absurdo que o leva a percorrer as secretarias labirínticas nas quais decorre a instrução, conduzida por juízes menores cuja única incumbência é inquiri-lo.

Todos aqueles com quem Joseph K. se cruza parecem saber mais do seu processo do que ele, e quanto mais K. se esforça por se livrar do estranho processo, mais se vê envolvido nele.

Escrito em 1914, O Processo acabaria por ser editado apenas depois da morte de Franz Kafka, em 1925. A presente edição é a tradução direta efetuada a partir dos manuscritos em alemão, anulando as alterações efetuadas por Max Brod, o amigo e testamenteiro de Kafka responsável pela publicação desta e de outras obras após a morte do autor.

ISBN: 9789722525077 – 11×17 (Bertrand Editora) / 2012 – 312 páginas


O Processo é um dos clássicos da literatura internacional do século XX e uma das quais ansiava muito ler pois é daquelas obras que não podemos morrer sem ter lido pelo menos uma vez. Contudo, também tinha algum receio em aproximar-me deste livro, pois já sabia mais ou menos sobre o que tratava e além disso, sabia que talvez não fosse uma obra que me deixasse de cara à banda. Embora nunca antes tenha lido nada do autor Franz Kafka, é impossível não reconhecer o seu nome e o legado literário que nos deixou (é pena que não nos tenha deixado ainda mais). O autor era deveras nihilista quanto ao seu próprio trabalho. Aquando a sua morte, deixou em testamento que os seus diários e todos os seus apontamentos e obras inacabadas fossem queimadas na íntegra, o que não deixa de me entristecer. Sabe-se lá quantas obras primas se perderam ao longo dos tempos por causa desta perspectiva por demais crítica das próprias criações.
Falando sobre a obra em si, o leitor entra neste livro como de pára-quedas. Não há uma entrada suave neste mundo, mal abrimos a porta somos deparados pela mudança fulcral que se dá na vida de Josef K., que descobre que um processo foi instaurado sobre a sua pessoa e tem de lidar com as consequências de tal choque. Esta narrativa, ainda que me tenha deixado a pensar e a reflectir, não foi altamente cativante em todos os seus momentos. Esta não é uma leitura compulsiva, com uma escrita que nos deixa de olhos colados às páginas. É sim, uma leitura reflexiva e melancólica até. É uma leitura que nos obriga a lidar com questões que são eternas e que irão sempre suscitar muitas interrogações ao longo dos tempos. Questões como a verdade, como o senso de justiça, como a culpa, a consciência são universos latos que dão profundidade moral a esta obra e é aí que, para mim, reside o grande poder das palavras que constituem este clássico.
É sempre positivo quando um livro nos faz parar para pensar, que nos obriga a interrogar grandes paradigmas da nossa sociedade e da nossa educação. É isso que faz desta obra um pilar da Literatura.

Contudo, a narrativa peculiar de Kafka não é das minhas preferidas. Como antes disse, não é um livro que nos puxe muito para ler, o relato parece um pouco desligado, desprendido de sentimento. Josef K. é a encarnação máxima desse desprendimento. Vê-se frente a frente com mudanças fulcrais na sua vida, com possíveis consequências de grande envergadura e ainda assim, passa pelo seu processo (na maior parte do tempo) com um desprendimento emocional surpreendente. Este protagonista, com esta visão desligada dos acontecimentos da sua própria existência, também me fizeram sentir – como leitora – desligada deste relato. Não criei uma ligação emocional com esta narrativa, porque não senti que o protagonista fizesse um esforço para se sentir interessado com os seus próprios problemas. Poderíamos afirmar que isso seria uma defesa do próprio K. para conseguir lidar com a nova realidade de poder vir a ser condenado por algo que não consegue realmente compreender, mas ainda assim, foi um protagonista que não me conseguiu convencer.

Em última instância, foi um livro que me deixou com sentimentos contraditórios. O livro, que o autor não considerava estar completo, é na realidade impossível de completar. Embora exista o ponto final que marca o desfecho da narrativa, não há nenhuma resposta verdadeira dentro das linhas deste livro e talvez também por isso, este livro me deixe com tantas sensações contrárias. As respostas que esperamos encontrar dentro do universo literário, temos que as encontrar cá fora, sem a garantia de alguma vez as encontrarmos, pois estas grandes questões que o livro levanta também não são de fácil resposta na nossa realidade.

3-51

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