Estados de Espírito #36

Sinopse:

Esta é a história de uma leitora que dizia não gostar de fantasia. Há alguns anos atrás, deve ter tido qualquer experiência traumática que acabou por a estragar para o dito género literário e isso impediu que entrasse no mundo puro da fantasia. Contudo, rapidamente entrou para a terapia chamada blogue literário e lenta mas eficientemente conseguiu ultrapassar o trauma. Hoje em dia vive feliz numa casa cheia de livros e voltou a ler fantasia de forma saudável.

***

Como já devem ter percebido, esta é na verdade a minha história. Parece incrível mas é verdade. Eu passei realmente por uma experiência traumática com o género literário do fantástico. Queria apontar uma razão justificada para não gostar de fantasia, mas por muito que procure a minha memória, não consigo encontrar um episódio especial. Por isso mesmo não consigo definir em que ponto decidi que não queria nada com a fantasia. Isto até parece uma mentira, visto que sou uma leitora que nunca se negou a qualquer tipo de género literário. E analisando as minhas leituras enquanto miúda e adolescente, parece falacioso dizer que não gosto de fantasia. Como toda a gente li o Harry Potter e foi uma das melhores séries que alguma vez tive a oportunidade de ler. Na verdade, eu cresci com o Harry Potter. Os livros dele acompanharam-me desde o início da adolescência até ao último ano do secundário. Por isso, como posso dizer que não gostava de fantasia naquela altura?

É por isso que crescer é uma experiência tão emocionante e elucidativa. Porque erramos e aprendemos com os nossos próprios erros e com a nossa estupidez.
Na verdade, creio que fui um pouco injusta com este género literário. Fechei-me às experiências que ele poderia oferecer-me e acabei por julgar um género por alguma experiência menos boa que tive. E isso impediu-me, durante anos, de arriscar ler livros que faziam parte deste género.

A missão “recuperar a Filipa para o mundo da fantasia” foi um processo um pouco doloroso e compreendeu vários estágios de evolução.

A primeira fase deste processo foi a negação, como em todos os processos traumáticos. Se fosse preciso, eu proclamava que a fantasia era o pior género literário à face da Terra. Argumentos como “não consigo passar das 50 páginas, é uma tortura física” foram utilizados muitas vezes ao longo dos anos. Até ao momento em que deixei de poder usar isso como desculpa plausível. Esta primeira fase aconteceu simultaneamente com a segunda, a raiva. Ao mesmo tempo que não queria ler fantasia porque não gostava, enraivecia-me o facto de ler todos os géneros menos este, pois se há coisa de que sempre me orgulhei foi de ler um pouco de tudo. Para isso, é preciso ter espírito aberto. Exactamente o que eu não tinha na altura (pelo no que toca a este assunto).

A terceira fase, a da negociação, aconteceu de forma algo subtil, devo dizer. Recordo-me perfeitamente de como começou esta fase. Depois da total negação em familiarizar-me com este género, de um momento para o outro, comecei a ler sinopses que me interessavam, de uma maneira ou de outra. Nunca arriscando muito, acabei por abrir-me à experiência da fantasia. O primeiro livro que comprei e que veio mudar definitivamente o rumo do meu processo de recuperação foi o Aprendiz de Assassino da Robin Hobb. Nunca perdi o receio que o livro me pudesse desiludir mas quando finalmente o decidi ler, a experiência surpreendeu-me bem mais do que estava à espera.
Esta foi talvez a fase que durou mais tempo. Aos poucos, quase sem se notar, fui comprando mais livros de fantasia. Fui pegando neles, fui espreitando as narrativas e voltei a redescobrir algo que tinha andado escondido por muito tempo. Digamos que fui mergulhando aos poucos no universo fantástico e fui de certa forma, perdendo o receio de comprar, de ler e de experimentar fantasia. Digamos que acabei por saltar a quarta fase e passei logo para a última fase do processo.

Mas antes de falar do último passo que dei nesta missão, quero falar sobre o momento derradeiro em que me apercebi que não podia voltar a dizer que não gostava de fantasia. Foi quando comecei o meu Desafio aos Leitores. Isto porquê? Porque sendo a fantasia um género muito apreciado e inclusive, o género literário favorito de muita gente, era óbvio que isso se iria revelar não só nas sugestões, mas igualmente nas derradeiras votações e decisões. Isso obrigou-me, de forma absoluta, a sair da minha zona de conforto e obrigou-me a ler mais fantasia, mais vezes. Obrigou-me a estar mais consciente de livros maravilhosos que estava a perder por ser teimosa ou por não querer abrir os meus horizontes. Mas, agora que o fiz e agora que pretendo fazê-lo mais vezes, abracei a última fase do meu processo de reabilitação e cheguei à aceitação.

Daí que, depois de todas as experiências bem-sucedidas que tive não só neste ano mas também no anterior, posso dizer que estou rendida ao género. E nunca mais poderei dizer ou utilizar argumentos que estão velhos e estragados, fora de validade. Ainda que não me possa considerar uma verdadeira fã do género, estou a conhecer universos que são fantásticos em vários sentidos e não apenas em género. Mais, estou a encher a minha lista para ler de livros que fazem parte do género e se há uma coisa que é positiva no meio disto tudo, além da óbvia vantagem de abrir os meus horizontes e ler realmente de tudo o que existe em termos de géneros literários, é que estou a descobrir coisas maravilhosas pela primeira vez. E isso é uma das melhores sensações do mundo.

Portanto, esta é a história de como me converti à fantasia. À laia de conclusão, permitam-me dizer – eu sou a Filipa e não consigo parar de ler livros de fantasia.

(daqui)

9 thoughts on “Estados de Espírito #36

  1. Fico feliz por teres mudado de opinião, Filipa. 🙂 Há livros, efectivamente, muito bons. Claro que, como em todos os outros géneros, há livros bons e maus. Há uns de que se gosta mais e outros menos. Mas isso é como tudo na vida… O que seria dos bons livros sem os maus livros?

  2. Adorei o teu texto 🙂 e fico sinceramente muito contente por te teres convertido ao mundo do Fantástico. Como uma das pessoas que elege o Fantástico como um dos seus géneros preferidos, embora seja como tu que leio um pouco de todos os géneros, fico feliz que tenhas gostado e que te tenhas tornado fã. Penso que começaste com o pé direito no género, com a fantástica Robin Hobb, e ainda bem que assim foi. 🙂

    Beijinhos e boas leituras.

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