Matadouro Cinco

Escutem: Billy Pilgrim tornou-se volúvel no tempo. Assim começa o clássico de Vonnegut, um livro de culto antiguerra que se tornou um dos textos literários mais influentes do século XX. Billy viaja no tempo e no espaço; detém-se em diversos momentos da sua vida, incluindo na sua demorada visita ao planeta Tralfamadore, onde é exibido, juntamente com uma estrela de filmes pornográficos, num jardim zoológico, e na sua experiência na Segunda Guerra Mundial, onde (à semelhança do próprio Vonnegut) é feito prisioneiro de guerra e assiste à destruição de Dresden.

ISBN: 9789722525947 – 11×17 (Bertrand Editora)  / 2013

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Billy Prilgrim é um veterano da guerra. Ele esteve em Dresden, na Alemanha, quando a destruição da cidade devido às bombas se deu. A sua participação na Segunda Guerra Mundial traz-lhe muitas recordações infelizes. Mas é após Billy ter tido um acidente de aviação e ter fracturado o seu crânio que ele decide trazer a público uma experiência sem igual: Billy diz que num belo dia visitou um planeta desconhecido para nós, humanos. O planeta chama-se Tralfamadore e os seres que o habitam não podiam ser mais diferentes do que nós. Acima de tudo, estes seres acreditam que ninguém pode morrer. A nossa vida é apenas feita de momentos e acreditam também que nós continuamos sempre vivos, nas nossas próprias recordações e nas recordações de quem nos rodeia. Billy acaba então por nos contar, através de várias memórias, a sua vida. Andamos constantemente a saltar no tempo, porque o que é verdadeiramente o tempo? Este livro é conhecido também como A Cruzada das Crianças, pois uma geração inteira americana pereceu nesta guerra. É um livro que nos faz questionar esta guerra – os seus motivos, a forma como se desenvolveu –  que marca um dos mais importantes períodos da história universal. 

Nunca tinha lido nada do autor Kurt Vonnegut, mas o livro dele “Breakfast of Champions” está na minha wishlist há já algum tempo. O que é curioso, no mínimo  é que o protagonista desse livro entra neste livro, Matadouro Cinco. Tudo o que sabia sobre este autor é que ele, com as suas obras, critica a sociedade americana com humor e palavras sábias. Também sabia que a imaginação deste autor é rica e muito elogiada. Aparte isso, não sabia que mais esperar. Quando comecei a ler a obra Matadouro Cinco, a primeira coisa que me captou a atenção foi o título. É um título muito invulgar e traz-nos à cabeça imagem de animais a serem mortos para depois serem vendidos para consumo alimentar. E na verdade, o que foi a Segunda Guerra Mundial, se não uma operação de matança? Os soldados eram enviados para o terreno e morriam aos milhares de uma vez. Foi uma época assombrosa e por isso, acho que este título está não só fabuloso, mas é um tiro certeiro, que capturou brilhantemente o espírito desta época.

A escrita do autor é tudo aquilo que ouvi dizer – fluída, divertida e dinâmica. Apesar de falar da obra falar de um assunto que não pode ser considerado feliz ou divertido, a forma como o autor critica a sociedade faz com que o leitor consiga divertir-se com isso e assim, a leitura torna-se mais acolhedora, por assim dizer. O autor apresenta-nos também personagens invulgares mas que nos chamam à atenção logo à partida. Tinha falado em cima que o protagonista do livro “Breakfast of Champions” aparece neste livro. O seu nome é Kilgore Trout e ele é um escritor de ficção científica que praticamente ninguém conhece. Ele é uma personagem deliciosa a meu ver. E altamente sarcástico e invulgar. Adorei ler sobre ele e só me deu mais vontade de comprar o outro livro do autor que mais quero ler, que nunca tive oportunidade de adquirir. O protagonista deste Matadouro Cinco é outro que adorei conhecer. Billy Pilgrim parece-nos a nós, leitores, ser um doente mental. E talvez até seja. Ao início, este livro parece um pouco estranho, surreal e pensei logo que Billy fosse maluquinho. Contudo, conforme fui avançando no livro, acabei por entrar dentro do espírito da narrativa e aprendi a ver o Billy por outra perspectiva, sem ser aquela que instantaneamente julga esta pessoa como um paciente mental. Ao abrir a mente e a imaginação, acabei a leitura a ver o Billy como uma pessoa que não se sente satisfeita neste mundo que conhece e que por isso viaja para sítios desconhecidos que lhe vão mostrar novas realidades. Claro, ele até pode ter assim umas ideias malucas e às vezes tem atitudes que o fazem parecer um completo lunático, mas é isso que o torna tão especial.

Todo este livro é especial e invulgar, tal como Billy. E fez-me pensar que a ficção-científica é um bom escape para a nossa realidade triste. É uma boa maneira de tentarmos desviar a nossa mente daquilo que conhecemos e abrirmo-nos a novas e diferentes realidades. Só assim podemos mudar o que achamos estar mal. Se isso implica que sejamos considerados loucos, que seja. Mas ao menos chegámos ao fim da viagem, satisfeitos por saber que tentámos outro caminho. Vimos outra coisas. Aprendemos de outra forma.

Para quem gosta de ficção-científica, este livro parece-me uma boa e diferente aposta. Eu, que não leio muita ficção-científica, adorei esta experiência. Quero ler mais do autor, sem dúvida alguma.

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