Mortalidade





Mortalidade é uma comovente viagem ao mundo da doença que marca o século XX, o cancro, sem nunca perder a racionalidade que o define. Nesta inevitável relação com a morte, Hitchens revela o seu lado mais humano e, ao mesmo tempo, mantém os seus principais traços jornalísticos.




ISBN: 9789722051439 – D.Quixote (Leya) / 2013 – 102 páginas




Christopher Hitchens, conhecido autor e jornalista, relata neste seu livro de memórias, a sua batalha contra o cancro. Mas este não é o típico livro de memórias. É certamente mais que isso. É um livro que traz à luz reflexões sobre o que é estar naquele espaço de tempo que não é propriamente vida, mas que também não é morte. É aquele interlúdio em que ainda temos esperança de vencer a morte, mas sabemos que não estaremos vivos por muito tempo. Christopher Hitchens, ao contar a sua experiência contra o cancro do esófago fala-nos não só  de como é errado temer a morte, mas como é igualmente errado não lutar pela vida. Também nos fala sobre religião, numa altura em que seria esperado, quase, que este ateísta reconhecido, se virasse agora para a religião como forma de consolo e de abrigo. E acima de tudo, Christopher relata com uma honestidade brutal, que a morte anda de mãos dadas com a vida. 

Há livros que nos aparecem ao longo da vida e que tornam nossos companheiros para sempre. Não sabemos bem como é que eles se cruzam no nosso caminho, nem porquê, mas sabemos que de alguma forma, foram perfeitos para a altura em que entraram na nossa vida. Foi o que me aconteceu com este Mortalidade de Christopher Hitchens. Já tinha ouvido falar no autor, mas na verdade, não sabia que ele tinha lutado contra o cancro e quando este livro me veio parar às mãos, não poderia saber o quanto ele poderia vir a significar para mim. E acabei por ser surpreendida. Muito, aliás. 
Este é daqueles exemplos fantásticos que nos mostram que os livros não se medem pelas páginas que têm. E em pouco mais de 100 páginas este livro conseguiu abalar o meu mundo de forma indescritível. 
Se me pedirem para descrever este livro, não o vou conseguir fazer. Mas uma coisa é certa, é daqueles pequenos tesouros que são impossíveis esquecer. E que valem a pena reler. 

O conceito de morte é um que consegue ser real e intangível ao mesmo tempo. A resposta parece óbvia. Todos nós sabemos o que ela é, todos nós sabemos o que esta implica. Mas não conseguimos realmente compreendê-la a não ser que já tenhamos passado por isso. E enfim, se realmente passámos por esta experiência, não estaremos por cá para contar a outrem como é que ela é.  
Por isso mesmo, o conceito de morte e o estado mortal é algo que nos define a todos nós por natureza. Desde sempre que tentamos lutar contra o nosso estatuto mortal e desde sempre que tentamos tirar algum sentido da palavra morte. 
Até hoje, aquilo que conseguimos fazer foi estender o período de vida e evitar a morte o máximo possível. Mas, façamos o que fizermos, ao fim da estrada, quem nos cumprimenta é a Morte. Não há volta a dar, diga a ciência o que disser. 
E o mais assustador de tudo é que este é um processo que não podemos controlar. Pelo menos não completamente. Todos os dias lidamos com morte e não há de facto nenhum critério de selecção. 
Aqueles que ficam lidam com as suas consequências e com o tempo, vamos aprendendo a lidar com os efeitos secundários que ela nos traz.

Mas pior do que lidar com a morte… como é que podemos lidar com o período de tempo que está no meio? Aquele em que sabemos que o nosso corpo está prestes a desistir mas o intelecto não? Aquele em que lutamos por ficar cá, mas que sabemos lá no fundo que o tempo se está a esgotar?
Este interlúdio parece por vezes pior que a própria morte, ao ponto de desejarmos realmente a morte. 
É um interlúdio dolorosamente real. Os melhores amigos são os médicos, as enfermeiras e os hospitais. A dor torna-se o nosso companheiro de cama. E contudo, queremos lutar pela vida. Porque nos parece óbvio que não queremos deixar este mundo. Mas, o que é mais assustador? Ficar ou ir? Estar sem realmente estar? 

Sinceramente, não sei.  



4 thoughts on “Mortalidade

  1. Fiquei com imensa curiosidade de ler este livro. A tua opinião fez-me lembrar momentos do meu estágio curricular… E principalmente a questão que surgiu da boca de uma criança “Para onde vamos quando morremos?”… Nós um bando de pseudo profissionais ficamos sem resposta para esta grande questão… Poderá parecer mórbido, mas eu gosto de ler sobre a morte e sobre as teorias que se criam em torno de um enorme tabu. As pessoas não gostam de falar, mas é necessário falar. É tão necessário que, quando o assunto é bem abordado, evita processos de luto dolorosos e arrastados no tempo. É um livro que vou apontar para ler…

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