Estados de Espírito #25

Há dois passatempos que me ocupam a imensidão de tempo que passo todos os dias nos transportes públicos deste país. 
O primeiro é ler. O segundo, quando estou a descansar do primeiro, é observar a multidão de pessoas com que me cruzo todo o santo dia. Sim, gosto de observar os seres-humanos, as suas expressões e perceber um pouco mais sobre esta coisa da humanidade que consegue ser tão bela e tão feia ao mesmo tempo. 
Considero que a humanidade está no seu pior aquando necessita de usufruir dos transportes públicos. Poderia estar aqui um dia inteiro a falar sobre as coisas desprezíveis que já vi nos transportes públicos. 
Não sei se isto é mal dos lisboetas, eternos nervosinhos da silva, sempre a mil a hora. Contra mim mesma falo, porque também sou daquelas que anda ao sabor da corrente, que anda sempre a pensar em mil e uma coisas ao mesmo tempo. 

Há um grande rebanho a passear em Lisboa, duas vezes ao dia. O primeiro é das 8h das 9h. O segundo das 17h45 às 19h. Andamos todos na mesma direcção, com os mesmos olhares ensonados, cansados. Todos com olheiras, que nem com base podem ser escondidas da vista do público geral.
Quem vai mais desperto, vai tomando atenção a alguns pormenores que passam despercebido a outros, que simplesmente estão-se nas tintas e não querem saber, ou  que passam pelas manhãs e pelas tardes num estado de ignorância despercebida, mas feliz. Eu sou daquelas pessoas que vai com um olho de águia em tudo o que mexe ao meu redor. E nos transportes, vejo o quão mal-educadas as pessoas podem ser e o quanto gostam de chatear as outras pessoas, só porque podem

E isto chateia-me, a sério que sim. Desde pessoas que se acotovelam à porta do metro, para conseguirem um lugar, quando vão sair na próxima paragem. Desde pessoas que vão a subir umas escadas com guardas-chuvas, mas que insistem a ir a balançar aquela treta para que as pessoas que vão atrás possam ver umas estrelas para animar o dia. Miúdos com 17 aninhos, saídos do ventre da mãe, que até empurram pessoas à entrada dos comboios para se poderem sentar, quando ao lado – em pé – têm uma mulher com uma criança ao colo e duas malas às costas. Foi essa a educação que os papás lhes deram?!
Pessoas a forçarem as portas do metro, como autênticos animais, quando o próximo metro será dali a 3 minutos. 

E eu, pobre criança ingénua ainda consigo ficar chateada com isto. E indignada. E olho para estas pessoas todas e penso porque raio é necessário virarmos bestas apenas por um lugar sentado? Apenas para ganhar mais 5 minutos da nossa vida. Eu também tenho pressa, também tenho responsabilidade e preocupações. Toda a gente tem, mas parece que quanto mais evoluídos somos, mais nos tornamos mesquinhos. Todos os dias me tento abstrair disto e é por isso que já não vou para as últimas carruagens, para a confusão. 
Porque me custa a acreditar que há pessoas que lutem por coisas tão sem importância. 
E entristece-me ver que com tão pouco tempo que temos, o estraguemos com esses nadas. 

Quem fala nos transportes, fala também noutras coisas. Mas esta é a minha realidade do meu dia-a-dia, duas vezes por dia, durante uma hora e é uma das coisas que mais me faz odiar os transporte públicos. É o facto de até nestas coisas, a natureza humana querer competir e não se conseguir desligar dos tempos egoístas em que vivemos. 

Contudo, hoje, ofereceram-me um lugar sentado, porque ia em pé a ler, embora carregada. E fiquei muito feliz com isso. É pouco? A mim pareceu-me muito. E por uma vez que seja, deu-me uma razão significativa para gostar de andar de transportes. 


| favim.com |

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8 thoughts on “Estados de Espírito #25

  1. Oh, Filipa, que querido/a 😉 isso foi uma atitude generosa!

    Já lá vão os tempos em que andava de comboio… com as condições mínimas da CP, tenho carro agora e utilizo-o… Com a crise, talvez volte ao comboio… enfim…

    Adorei estes estados de espírito, isso lembra-me um texto que escrevi na semana passada a recordar os tempos em que utilizava o comboio do inferno! ahah 😛

    fica aqui o post, se tiveres curiosidade em ler: http://desejosdealma.blogspot.pt/2012/11/textos-apanhar-o-comboio.html

    beijinhos** (redimi-me hoje um bocadinho! prometo tentar comentar mais, mas já disse que adoro estes estados de espirito? adoro mesmo!)

  2. Pois foi, fiquei muito feliz! Não é todos os dias que acontece. Pois, a mim não me compensa estar a levar o carro todos os dias para Lisboa, seria suicídio financeiro (embora os transportes não sejam assim tão baratos, ainda compensa).

    vou ler, obrigada por me teres deixado o link! 😀

    E obrigada também pelo elogio, é bom saber… 😀 Gosto imenso de escrever o que me vai assim pela cabeça! 😛

    Está à vontade! Eu percebo perfeitamente… 😀

    Beijinho grande*

  3. Querida Filipa M. como eu te entendo. Agora já não utilizo muito os transportes, pelo menos não tanto como utilizava quando andava a estudar. Tal como disse, eu entendo-te pois o que descreveste é a pura realidade! Revejo cenas em tudo o que escreveste. E esse momento de generosidade que tiveram para contigo, fez-me lembrar também um momento que vivi no sábado passado.
    Estava na estação de metro a carregar o meu bilhete mas a máquina não queria aceitar a minha moeda de 2€. Esperimentei vezes sem conta e nada! Até que um senhor, que estava na máquina ao lado da minha, perguntou-me que moeda era. Eu respondi “É uma moeda de 2€” e ele, sem dizer mais nada, apenas estendeu-me a sua mão com várias moedas e sorriu ao de leve, incentivando-me a trocar a minha moeda por duas das dele. Eu assim fiz. Dei-lhe a minha e troquei por duas de 1€. Agradeci e o senhor sorriu-me, acenando com a cabeça, e foi-se embora.
    Confesso que não foi nada demais mas, para mim, foi tudo! Entrei no metro mais contente do que quando cheguei à estação. 🙂

    Beijinhos*

  4. p7 says:

    Ah, os dramas que se geram nos transportes… pessoalmente já tenho assistido a algumas “fitas” no autocarro, e tem sido quase sempre por causa dos lugares, e quase sempre com pessoas mais velhas pelo meio. Já vi uma idosa chamar um nome feio a uma senhora e tudo! xD E depois é a nossa geração que está perdida… com exemplos destes…

    Mas, verdade seja feita, também já tive uma velhota a querer oferecer-me o lugar porque ia carregada com a mochila do portátil às costas. Por isso, acho que é uma questão de educação e bom senso, o que parece fazer muita falta por aí. Há uma espécie de “regras não escritas” de boa educação nos transportes, e faz-me confusão ver as pessoas ignorá-las, como esperar que toda a gente saia da carruagem do metro antes de se porem a entrar. Ou empurrar à força toda para sair no autocarro quando as pessoas que estão à frente se calhar até vão sair naquela paragem também. Enfim… um bocadinho mais de calma não nos fazia mal nenhum, parece-me.

  5. ok devo ser a única que não liga a nada disso O.o vou sempre na minha e nem olho para os outros. Tmb não é costume apanhar transportes em hora de ponta e por isso não tenho razões de queixa. 😛

  6. Como te compreendo. Às vezes são estas pequenas coisas que basta para nos fazerem sorrir e há pessoas que têm sempre estes gestos simpáticos e que conseguem animar o nosso dia! 😀

    Beijinho*

  7. Não podia concordar mais contigo, p7. Anda sempre tudo num stress e depois claro, é mais fácil que estas coisas acabem por acontecer e que são tão facilmente evitáveis!

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