Titus – O Herdeiro de Gormenghast

Titus, o Herdeiro de Gormenghast é literatura fantástica mas não se assemelha a nada que tenha sido escrito antes ou depois. Gormenghast é um castelo antiquíssimo, do tamanho de uma cidade e que, tanto quanto sabemos, pode ser a única construção em todo o mundo. Sem pontos de referência para a nossa realidade, o romance adquire uma atmosfera surreal e mágica. As personagens são todas elas bizarras: o taciturno e cadavérico Mr. Flay, o vulgar e obeso Swelter, o ligeiramente deformado mas brilhante Steerpike. E Titus, o herdeiro de Gormenghast. O castelo de Gormenghast é um mundo de pesadelo e nenhuma pessoa sã lá quereria viver… e no entanto, quão estranho, belo e divertido é esse mundo! Arrisque-se nesta leitura pois nunca mais a irá esquecer.


ISBN: 9789728839888 – Saída de Emergência (Colecção Bang!) / 2007



Gormenghast é mais do que um castelo. De facto, Gormenghast parece ser tudo o que abarca este universo que Mervyn Peake criou. É o mundo conhecido, uma cidade imensa, sem fim à vista. Tanto quanto o leitor se consegue aperceber, Gormenghast é tudo o que existe neste universo algo alternativo e para os seus habitantes, é o refúgio, a vida, tudo aquilo que eles próprios conhecem e ditam de usual. 
Esta é uma história que nos conta a vida quotidiana neste reino de Gormenghast, que é no mínimo, insólito. O conde e a condessa de Gormenghast acabaram de gerar um herdeiro que, um dia, irá governar todo este mundo – Titus. Ele é razão para que a vida neste reino se agite de uma forma que antes não foi possível. 
Na verdade, desde que todos os residentes no castelo, souberam de tal notícia que a vida adquiriu novos contornos. Até mesmo os Exteriores, os cidadãos que habitam fora das muralhas do castelo, vêem, de alguma forma, a sua vida ser afectada por esta notícia. Para todos, esta notícia é recebida com sorrisos e alguma surpresa, pois isso significa que Gormenghast finalmente terá um herdeiro para assumir as responsabilidades do reino quando assim for devido. 
Mas nem tudo é o que parece e por meio de corredores sombrios e escadas que nunca mais acabam existem personalidades com interesses individuais que não vêem estas notícias com tão bons olhos como outros e assim, Gormenghast torna-se palco de uma aventura repleta de acontecimentos singulares, estranhos, mas que ao mesmo tempo, entretêm e divertem o leitor.

Conheci este autor e este livro através das menções que lhe são feitas na lista dos 1001 livros para ler antes de morrer. Quando descobri que a colecção bang! já havia editado este livro em 2007, fui a correr ler sinopses e opiniões que me pudessem ajudar a decidir se haveria ou não de ler este livro. Sendo classificada por muitos como uma obra dentro do fantástico, única, não poderia deixar de me sentir impelida a ler este livro, mesmo que o fantástico não seja o meu género literário favorito. Contudo, e não tendo muitas opiniões (nos blogues portugueses) para me ajudar a decidir, acabei por tentar a minha sorte e ver o que é que este livro tinha assim de tão extraordinário. Sendo que é uma obra que data de 1946, acreditei que pudesse ser algo realmente original dentro do género em que se insere. 
E não me enganei. 
Titus – O Herdeiro de Gormenghast é mesmo uma obra muito original e que me mostrou um lado do fantástico que eu não conhecia e que acabou por me conquistar de certa forma. 

A escrita do autor não é uma que considere fácil. Tem muitas descrições, um discurso bem articulado, mas por vezes, complicado de seguir. É um autor que fala por meias palavras e espera que o leitor consiga perceber onde ele quer chegar e conta com a nossa atenção contínua para que o mesmo consiga de facto, aproveitar esta obra. Por isso mesmo, é uma leitura lenta e que custa a entrar no ritmo. 
O início do livro foi algo complicado para mim, porque apesar de não estar habituada a este tipo de escrita, não me adaptei logo ao ambiente do livro. Achava que tudo era muito estranho, insólito e não conseguia perceber um fio condutor na trama. A história propriamente dita, demorou a desenvolver e cheguei a pensar que se o livro fosse sempre assim, a coisa não iria correr lá muito bem para os meus lados.
No entanto, o livro puxava por mim. Por um lado, pensava que isto era demasiado estranho para eu estar a desenvolver algum tipo de afecto pelo livro, mas por outro, quando fechava o livro, pensava «então mas agora o que será que vem a seguir? O livro não pode ser só isto…». E a verdade é que mal consegui entrar dentro do espírito da obra e da escrita do autor, comecei a apreciar aqueles discursos que falam mais nas entrelinhas e que têm o seu quê de ironia. 
Acabei por conhecer melhor as personagens que viviam dentro do castelo de Gormenghast e acabei também por firmar algumas lealdades com uns, e acabei por entrar em conflito com outros. 

Como não podia deixar de ser, a figura central da história é Titus. É por ele que esta história se desenrola. É por ele que o futuro se forma, se constrói. Embora o leitor não tenha tido oportunidade de saber como é que esta personagem vai ser enquanto pessoa, pois ele era senão um bebé, foi das personagens que mais me ficou na memória. A segunda foi a sua irmã, Fuschia. E em terceiro, o Steerpike que conseguir surpreender-me sempre a cada momento da história, quando no início, após o ter conhecido, achava que ele seria um pobre inocente no meio de toda esta insanidade. 
Existiram outros que são igualmente dignos de atenção, tal como: Swelter, as gémeas Cora e Clarice, e o criado pessoal do conde Sepulchrave – Mr. Flay. A obra está repleta de personagens únicos, que enchem este livro tanto de animação como de frustração e todos eles, tão completos e complexos que é uma delícia tentar descortinar as suas verdadeiras personalidades. 

Algumas conspirações e mistérios pelo meio, mas sobretudo imaginação e fantasia é o que faz deste livro uma obra que vale a pena ler, embora ao início possa parecer algo estranha. 
Contudo, Mervyn Peake traz aos seus leitores um mundo vasto para se explorar. Gormenghast pulula de vida e é um prazer irmo-nos aprofundando neste universo misterioso e com muitos segredos. 
O final do livro é algo que me deixou a pensar e que deixa também o gosto de ansiedade para ler a continuação, que é algo que irei fazer a seu tempo.

Somando tudo, eu e Gormenghast ainda não estamos prontos para nos separarmos. 


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