Demência

No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu.

Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às

filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…


ISBN: 9789898455253 – Alfarroba / 2011
Letícia é, desde há um ano, viúva. Com ela, vivem as duas filhas – Luz, com 9 anos e Maria, com 6 anos. Na sequência de ter sabido que a sua sogra se estava, de dia para dia, a esquecer-se de pequenas coisas, Letícia e as filhas decidem, de malas e bagagens, mudar-se para casa de Olímpia na pequena aldeia de Ferreirós do Dão, em Tondela, de modo a que possa avaliar a situação em que a sua sogra está e para também poder cuidar dela. Contudo, Letícia sabe muito bem que Olímpia a odeia, por motivos que remontam já a um passado algo distante. Isto porque Letícia cometeu um crime contra um adorado de Olímpia e acabou por ser absolvida pelo mesmo – um crime este que apenas foi cometido por razões de sobrevivência (a sua e a de suas filhas). No seu coração, Olímpia continua a achar que Letícia não deveria ter sido absolvida e apenas autoriza a estadia em casa dela, devido à ligação familiar que tem com as netas, que mal conhece. 
Infelizmente, Olímpia rapidamente se começa a esquecer de coisas mais importantes do que aquelas pequenas tarefas do quotidiano. Sofrendo de Alzheimer, Olímpia começa a esquecer o presente e na confusão mental onde vive, apenas se lembra do passado, onde ela própria sofreu atrocidades horríveis. O seu único refúgio é Sebastião, o seu melhor-amigo, que a acompanhou durante toda a sua vida, até no nascimento – que agora responde ao pedido de auxílio de Olímpia e se afasta da sua casa em Lisboa para cuidar da sua grande amiga. 
Por outro lado, Letícia, sofre todos os dias, neste que é o seu retorno à terra do seu marido. Todos os dias é humilhada e as gentes da aldeia não a aceitam no seu pequeno refúgio, voltando as costas a esta mulher, que embora não sendo inocente é certamente uma vítima, e também às suas filhas, de que nada têm culpa. A vida nesta terra não é nada fácil para estas três pessoas, que tentam sobretudo, sobreviver. 
Gabriel, director e único professor da escola da aldeia, acaba por dar emprego a Letícia como professora e embora a notícia não seja bem recebida pelos pais dos alunos, a verdade é que têm muito a ganhar pelo facto de Letícia estar disposta a abraçar este emprego como se a sua vida dependesse disto. O próprio Gabriel, que não confia na Letícia e é uma das pessoas que não lhe dá as boas-vindas, começa a revisitar o passado, onde descobre que afinal a sua amada desde os seus tempos de jovem estudante, pode realmente ter dito a verdade sobre o seu estatuto de vítima, no que toca ao crime que cometeu. Acaba por se tornar a rocha de apoio das três mulheres que vão povoar a sua vida, mesmo quando ele tenta resistir aos seus encantos…
Célia C. Loureiro é uma jovem autora que já tem algumas obras terminadas. Contudo, em 2011, dá-se a viragem no seu percurso de escrita e Demência é publicado. Sendo seguidora do blogue da autora e mantendo um olho nas leituras que a própria vai fazendo no goodreads,   acompanhei de perto as opiniões que iam aparecendo sobre esta obra. A maioria (se não mesmo todas) foram positivas e comecei a sentir os bichinhos carpinteiros, como que a lembrarem-me que devia mesmo ler este livro. 
E de facto, uma amiga emprestou-me o livro e lá fui eu, toda contente, pegar no livro para tentar descobrir o que é que este título tão forte tinha para me mostrar. 
Não sei o que esperava. Só sei que não esperava isto, nem esperava sentir-me impelida de forma tão definitiva para esta obra. O título é forte, com uma inegável conotação para aquilo que é frágil, limitado, falível – a mente humana. Uma das personagens centrais do livro sofre de Alzheimer e o leitor irá acompanhar o percurso desta doença, a forma como pode limitar a existência de uma pessoa, como a pode confundir, mas sobretudo, como pode ser uma doença clemente, também. 
O livro conta-nos duas história paralelas, mas interligadas por laços familiares. A história de Olímpia e a história de Letícia. Duas histórias de amor, de força, mas sobretudo, duas histórias de sobrevivência e ao mesmo tempo de sofrimento. 
Começando pelo aspecto óbvio desta leitura, tenho que dar os meus parabéns à autora, por duas coisas. Primeiro, pela escrita. Gostei bastante da sua escrita. Fluída, simples mas ao mesmo tempo profunda e completamente envolvente. Sendo este um livro com uma extensão considerável (pouco menos de 400 páginas) fiquei admirada com a forma como a escrita de Célia me envolveu em toda a leitura. De igual forma, tenho que dar os parabéns pela forma como organizou o enredo e pela história em si, que conseguiu cativar-me desde o início. As passagens pelo passado foram todas muito organizadas, sem criar confusão na mente do leitor e existe um avanço gradual na história que me agradou igualmente. Vamos sabendo de mais pormenores, descobrindo novos aspectos sobre os personagens conforme vamos avançando nos capítulos e as coisas não nos aparecem do “nada”. Existe a possibilidade do leitor ser parte integrante do processo em que desvenda parte do mistério e com isso, sentir-se mais próximo dos personagens e da história.
O processo descritivo da vida no interior do país, do período de ditadura e da evolução da vida destas pequenas comunidades foi outro elemento que me conquistou, sendo eu conhecedora das particulares deste quotidiano, especialmente dos juízos de valor que se fazem e dos mexericos que se geram em sítios tão pequenos. Por outro lado, a aldeia que a autora fala é relativamente perto da própria aldeia, onde em criança, passei muitas vezes os meus verões e por isso também me senti próxima das descrições que a autora fez sobre a vida no interior, onde tudo é motivo para falatório. 
Gostei igualmente das personagens, mas principalmente das miúdas, Luz e Maria, e de Sebastião. Creio que froam eles os verdadeiros pilares desta história. Sebastião por ser o homem com o carácter que tem, honrado e fiel a si mesmo. Por ter uma alma caridosa e por ter sido um farol de esperança para as crianças e também para a própria Letícia. E por se ter mantido fielmente ao lado de Olímpia até ao fim. Já as crianças, foram a alegria do livro. Também elas fortes, que não viveram tempos fáceis, mas que estiveram sempre preparadas para o momento em que poderiam voltar a sorrir e começar uma nova fase das suas jovens vidas. 
Gostei igualmente de Letícia e Gabriel. Apesar de a sua história ter sido bonita e carinhosa, não apreciei o facto do Gabriel ter tido uma evolução tão rápida quanto à mudança de opinião no que toca à culpabilidade de Letícia. Pareceu-me que de um dia para o outro, após uma conturbada noite de sonhos do passado e lembranças não propriamente felizes, ele mudou rapidamente de opinião. Ora não confiava em Letícia, como rapidamente se torna o seu protector. Quanto à parte misteriosa, se é que se pode chamar isso mesmo, já estava à espera deste percurso. Estava realmente à espera que o enredo se desenvolvesse exactamente como se desenvolveu e embora isso não seja uma característica negativa, gostaria de ter sido surpreendida em algum momento da história. 
Contudo, é importante referir que embora eu não tenha sido propriamente posta de cara à banda, a autora conseguiu aqui escrever uma história com todos os elementos que se pedem para uma boa leitura, falando em casamentos, divórcios, no espaço temporal em que Portugal vivia numa ditadura e falando sobre violência.
São todos eles, assuntos que merecem a reflexão dos leitores e acho que a perspectiva que podemos ver neste livro é muito cativante.
Foi uma leitura que me deu prazer e que me satisfez. Só tenho pena de ter lido com tanta desenvoltura, que tenha sido obrigada a despedir-me desta história tão bem conseguida.

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2 thoughts on “Demência

  1. Já tinha visto algumas opiniões favoráveis e andava com a pulga atrás da orelha, mas adorei a tua opinião.
    Será sem dúvida uma das minhas aquisições 🙂

    Ps. Já viste o que ando a ler?
    – O Quarto Mágico – veremos se melhora em relação ao Feitiço da Lua 🙂

  2. É mesmo muito giro! 🙂

    Já tinha visto sim! Espero que gostes… eu adorei esse livro, se bem que já não me lembro muito bem se esse foi de facto o meu favorito!
    Mas ao menos é uma história completa, no sentido em que tem um final decente e completo! 😀

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