As Velas Ardem Até Ao Fim

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular…

ISBN: 9789722020626 – D. Quixote (Leya) / 2001




Entre uma floresta húngara, existe uma mansão imponente pertencente a um general. Após a morte deste, a mansão foi herdada pelo seu filho, que sempre acreditou que a vida lhe ofereceu as melhores sensações que se pode ter. O filho do general desde a sua meninice que tem um amigo que é como se fosse uma extensão do seu próprio corpo, da sua própria personalidade. Durante 22 anos, ambos viram esta amizade florescer e prosperar sob os olhos de todos os seus conhecidos, que ficavam admirados por ver tal relação. 
No entanto, de um momento para o outro e sem qualquer aviso, esta amizade chega a um momento em que parece parar no tempo, fica em suspenso durante 40 anos. Sem qualquer aviso anterior, estes dois amigos perdem o contacto durante 4 longas décadas. Cada um deles viveu a sua vida, atingiu (ou não) os seus objectivos, sorriu quando pôde, chorou quando quis. O filho do general, depois de viver muitos anos no estrangeiro, acabou por se enclausurar dentro da sua mansão e ao mesmo tempo esta, começou a perder os seus encantos antigos e a sua vivacidade. O seu amigo mudou a sua nacionalidade e depois de ter vivido algum tempo em Londres, foi viver para os trópicos, zona geográfica que segundo os rumores, mudava de forma absoluta o carácter dos homens que lá vivessem. 

Passados 40 anos, estes dois amigos irão encontrar-se nesta mansão que já passou a época do seu esplendor há muitos, muitos anos. Os dois amigos irão sentar-se na mesa do salão de jantar e irão reviver um jantar muito similar a este, que teve lugar no mesmo salão há 4 décadas atrás. Irão reavivar sentimentos passados e irão por fim, perceber até que ponto a amizade deles é genuína. Irão aperceber-se de que o segredo que se interpõe entre os dois é demais para sustentar a sua amizade e vão, por fim, desenterrar todos os ressentimentos e tudo aquilo que minou aquela que foi uma ligação de 22 anos. 

De que forma é que podemos definir a amizade? A maneira de descrever tal relação é muito vasta e pode ser feita das mais variadas maneiras. Até podemos dizer que a amizade é um relacionamento humano onde várias características saltam à vista: a afeição, lealdade, o facto de sabermos tudo sobre a(s) outra(s) pessoas. A amizade envolve de igual forma o altruísmo. Poderíamos ir buscar muitas definições para definir esta palavra latina, que se crê ter derivado da palavra amor
Contudo, até que ponto uma amizade entre duas pessoas vai? O que é que se pode exigir ou não exigir de uma amizade desse tipo? E até que ponto é que podemos ter a certeza que essa pessoa é cem por cento nossa amiga, ou não se crê apenas ser nosso amigo, mas acaba por se revelar outra coisa totalmente diferente?
Será que uma amizade pode ter segredos? Será que se uma amizade começar a alimentar um segredo, a relação fica igual? Poderá sobreviver a tal provação? 

Já tinha ouvido falar neste livro há alguns anos, mas a verdade é que nunca pensei que o chegasse a ler tão cedo. Contudo, muito recentemente durante uma conversa sobre livros inesquecíveis, o título deste livro foi mencionado e decidi que seria finalmente este ano que acabaria com as dúvidas e que leria o livro de uma vez por todas. Não havia razão para adiar mais, afinal o livro era tão pequeno que num instante estaria lido. E assim foi a minha estreia com o autor Sándor Márai que acabou por mudar a minha vida na mais subtil das maneiras. 
Nunca esperei que este As Velas Ardem Até ao Fim me afectasse da maneira como afectou. De facto, não sabendo, no início da leitura, o que esperar desta obra, nunca poderia adivinhar que o autor iria pegar numa temática tão interessante como é a amizade e tudo aquilo que implica esta relação humana (que implica muito mais do que aquilo que estamos à espera). 
A escrita do autor é simplesmente maravilhosa. Além de envolver o leitor de uma maneira quase enfeitiçadora, é capaz de fazer com que este reflicta sobre a ordem das coisas. Apesar do autor ter um relato bastante preciso, tem o dom de formular questões que atingem o seu leitor bem no centro da sua consciência. Estas perguntas pairam no nosso espírito sem resposta e é nesse momento em que nos vemos envolvidos na obra, sem existir nenhum remédio para o mesmo, que não seja continuar a ler na esperança de que o autor responda concisamente a estas questões. 

É altamente provável que o leitor tenha, nalgum momento da sua vida, reflectido sobre estas questões da forma mais imperceptível que existe. As questões pairavam à beira da sua consciência, nunca sendo realmente analisadas em profundidade. Inconscientemente, o leitor sabe perfeitamente que as perguntas lá estão à espera de ser respondidas, mas nunca sentiu inclinação para tentar encontrar a resposta ou simplesmente acha que as respostas virão com a vivência da vida. No entanto, ao ler esta obra, essas perguntas deixam simplesmente de pairar à beira da nossa consciência e o leitor passa a activamente procurar essas respostas, correndo o risco de acabar visivelmente frustrado, pois a resposta a estas perguntas não se encontram ao virar da esquina. Esta obra aponta directamente à dúvida fulcral de um dos vários aspectos da nossa existência – o que é amizade, o que podemos exigir do nosso amigo, como aceitar as diferenças, como aceitar que o nosso amigo mantenha um segredo e que isso mine a relação.

O autor reflecte sobre vários aspectos da amizade e o leitor vai igualmente percebendo que segredo é que se interpõe entre estes amigos e vai poder perceber igualmente de que forma isso prejudica a relação entre os dois. As perguntas que o autor deixa no ar atingiram-me de tal maneira que acabei por chegar ao final da obra como que dormente, anestesiada. Após essa reacção inicial, acabei por retornar bruscamente à realidade, como se tivesse acordado de um pesadelo. E percebi que a forma como o autor retrata a natureza humana, como apresenta a origem das relações humanas nunca antes fez tanto sentido para mim como agora. Adorei a forma como o autor me fez pensar seriamente sobre as ligações humanas que formamos ao longo da nossa vida – umas importantes e fundamentais, outras nem por isso – e acabei por reflectir sobre de que forma essas ligações humanas nos moldam para a vida futura, de que forma moldamos o nosso carácter e nos adaptamos a pessoas diferentes, sem nunca percebemos na totalidade o que é que podemos exigir dessa ligação. Sem nunca atingir o verdadeiro objectivo de tal ligação e sem conseguir responder à pergunta que sabemos que paira lá atrás da nossa mente – esta pessoa seria capaz de trair esta amizade? Seria capaz de trair a minha confiança? Seria capaz de destruir esta ligação por qualquer motivo?

As velas arderão até ao fim, mas as perguntas manter-se-ao até depois disso, deixando que a nossa mente ande às voltas até encontrar uma solução para tal dilema, sem nunca encontrar uma resposta que a satisfaça completamente. Uma obra realmente inesquecível, um livro que manterei junto do coração para o resto da minha vida. 


   

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